Ficção nossa de cada dia

Foto: Edgar Pêra em https://edgarpera.org/2015/10/14/cine-utopias-kino-manifesto-1/

Texto sobre os capítulos II, III e IV do livro “A Tela Global” de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy

“Da era do vazio, passamos à era da saturação”, assim começa o segundo capítulo de O Ecrã Global e também da nossa era, onde tudo é causa e motivo de excessos, acessos, siderações, hiperconexões e desconexões. Na hipermodernidade, somos convidados a vivenciar os extremos como forma de aniquilar o vazio existencial decorrente de um sistema econômico caótico.

Em uma vida ordenada por números, fica fácil perder as contas de quantos dias se foram sem vivenciar um pôr do sol, desfrutar de uma boa companhia, se deliciar com o aroma da manhã, qualquer outra ação simples que exija um pouco mais de tempo e paciência. Tempo tornou-se sinônimo de dinheiro e não mais de vida, ainda que o custo mais alto ainda provenha dela.

Vivemos em um paradoxo. Nossa pressa de (sobre)viver a este sistema nos faz mergulhar vertiginosamente em uma viagem onde a parada final é a morte. Percebemos facilmente isso quando trocamos cinco dias de nossas vidas por apenas dois. Nesse sentido, a vida humana hoje vive numa nova ordem de grandeza, onde 5 < 2.

Essa métrica faz parecer razoável nossa necessidade de viver o hic et nunc mais do que o carpe diem, já que o amanhã não nos pertence. Pode parecer uma perspectiva um tanto pessimista, mas ela traduz muito da lógica da imagem-excesso. Queremos o máximo de tudo, agora mesmo, afinal, temos apenas 24 horas por semana para sermos aquilo que queremos (ou acreditamos que queremos) ser e/ou ter. Logo, nada mais justo que ter doses hiperbólicas de adrenalina, cores, sons e imagens.

O hipercinema traduz uma demanda geral de sensorialidade e de emocionalidade perpetuamente renovadas, demanda que deve-se ao triunfo da cultura hedonista e à necessidade de fugir de um cotidiano cada vez mais de mal-estar e de ansiedades subjetivas. (p. 78)

Nesse sentido, o cinema não mais apenas retrata a sua realidade local como já fez outrora, e por vezes até o faz hoje, mas sim passa a suprir uma lacuna social existente, como um medicamento, que é criado para sanar determinada patologia, numa lógica quase que on demand. Sua vida está sem aventura, romance ou emoção? Vá ao cinema.

A lógica de profusão, advinda do capitalismo industrial, onde nada é suficiente, segue o mesmo sentido de deliberação no cinema, uma vez que nos tornamos hiperconsumidores e passamos a ter “horror do pouco” (p.89), queremos cada vez mais e melhor, ainda que seja necessário transcender o real. “O cinema não apenas ilustra o fenômeno social, como os próprios atores moldam sua aparência física na dos personagens que encarnam-se” (p. 82).

Numa lógica de desequilíbrio quase que constante, onde sobra-se tempo e falta-se dinheiro e vice versa, o real já não nos é mais o suficiente, precisamos transcender, viver o irreal, declinar puramente na vertigem, vivenciando o sórdido, o mórbido, o proibido, ainda que como o expectador. Queremos pessoas meio humanas e meio máquinas, queremos sexo explícito pela ausência de o fazê-lo, desejamos a ultraviolência como forma de desopilar nossa insatisfação com o real, desejamos morrer por duas horas e quinze minutos e renascer ao final de um filme. Estamos dispostos a nos anular por completo em prol das sensações puras para nos encontrar consigo mesmos, ainda que num personagem.

A saída da narrativa simplex rumo à multiplex foi um processo quase que natural, uma vez que para que o cinema continuasse dialogando com seus respectivos públicos, este precisava ir além do conto, precisava ir direto ao ponto, ao não dito, ao representativo. Seria impossível permanecer com o diálogo unilateral em plena era da informação.

Dessa forma, ao alinhar-se a lógica da imagem-multiplex, só restava ao cinema dar o devido conforto que seu público tanto ansiava desde seus primórdios, uma vez que as histórias tornaram-se extensões de suas próprias vidas, a imortalidade. Filmes que se desdobram em sagas, em paródias, remakes, pré-sequências entre outros desdobramentos que permitem que a história se torne um pouco mais longa, como as narrativas transmídia e multimídia. O fim tornou-se um pouco mais distante, ainda que irremediável.

Esse texto escrevi para a disciplina Audiovisual e Mídias Digitais semestre passado, mas só agora me veio postá-lo aqui ;)