Cahuê

Aquela blusa que gostei na loja, a fechada que tomei do ônibus, o deadline pra vencer no trabalho, as contas que empilham na mesinha da sala. 
Aquela amiga que fiquei de encontrar, o som da risada da sobrinha, a visita aos avós, as cartas dos pais e cartões dos amigos.

A gente sabe o que é importante na vida e o que apenas faz parte. Mas o deadline aperta, preciso chegar no horário, pô motorista, tá de brincadeira?! E a nossa energia, nossa atenção, se perde no meio de tudo.

Quando meu pai ficou doente e eu ficava direto no hospital, um amigo me perguntou onde era e apareceu lá no seu horário de almoço do trabalho. Me fez tomar uma coca-cola e prometer que ia comer quando passasse a náusea que eu estava sentindo. Me fez rir dizendo “ainda bem que vim te ver porque esse seu cabelo assim não dá” enquanto fazia um penteado/ cafuné. Esse era o Cahuê, meu amigo que sabia o que era importante. Eu hoje tomei um tapa na cara da vida e agora estou aqui tentando racionalizar enquanto nada faz sentido.

Meu amigo faleceu, com só 27 anos. “Vivi pouco mas sou vivido” ele dizia. Ele tinha razão.

*escrito em 02 de junho

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