A Solidão da Mulher Treteira

Ou até que ponto devemos ser passivas em nome da broderagem

Arte por Marion Bordeyne

Até onde você seria capaz de ir por uma amizade?

Essa pode parecer o tipo de pergunta que se encaixaria bem num daqueles questionários de revistas teens os quais preenchíamos — ou ainda preenchemos, no judgements — ávidamente com a intenção de encontrar um motivo, razão ou circunstância que explicasse a nossa vida naquele momento. Ou nossos relacionamentos. Ou, nesse caso específico, nossas amizades.

Esses dias, estava eu e uma amiga refletindo sobre as dores e as delícias de ser uma mulher treteira. É bom frisar que estávamos tendo essa discussão via whatsapp, já que a correria da recém-chegada vida adulta não nos permite encontros pessoais tão frequentes quanto gostaríamos.

Provavelmente ainda essa semana você vai ver algum texto da Vice condenando essa tal geração dos relacionamentos impessoais, blá blá blá, modernidade líquida, blá blá blá Bauman se revirando no caixão. Quando ler algo assim, tente se lembrar dos jovens de vinte e poucos anos que trabalham e fazem faculdade simultaneamente e ainda conseguem garantir um tempinho maroto (em torno de 2 horas, ou um pouco mais caso você tenha perdido o controle da sua vida e a necessidade de dormir) para botar aquela série do momento em dia.

Mas voltando.

Um dos pontos principais da conversa foi o fato de estarmos perdendo amizades por sermos vistas como as problematizadoras do role ou, popularmente conhecidas, como as espanta rodinha.

Cheias de culpa, começamos a tentar achar nosso erro. Desde questões como “Por que a galera pisa em ovos quando fala com a gente?” ou “Por que não me sinto mais tão confortável em roles que antes eu estava sempre frequentando e enaltecendo?” até perguntas de cunho quase filosófico, como “Quando foi que troquei o consumo de álcool por água de coco e sucos de polpa?”.

Essa última pode ser facilmente explicada graças ao nosso metabolismo estar ficando cada ano mais lento.

As outras, chegamos à conclusão que talvez se expliquem pelo fato de não conseguirmos mais ser tão passivas diante determinados comportamentos.

“Ah nossa, isso quer dizer que vocês se tornaram intolerantes!”

Acredito que a palavra intolerância seja um termo muito forte, que denota agressividade e qualquer coisa que já induz as pessoas a gritarem “fascista!” com todas as letras na tua cara. Como nunca bati em nenhum amigo meu com uma lâmpada— nem nunca sequer levantei o tom da minha voz— por ele ter se posicionado contrário a meus valores e crenças, acredito que o termo correto não seja “intolerante”. E sim, menos passiva.

E acreditem, eu sei que existem pessoas intolerantes dentro do feminismo ou de qualquer outro movimento que defenda os direitos das minorias tanto quanto vocês que gostam de ficar jogando isso na minha cara. Então, não encham meu saco.

A questão é: nós passamos a fazer algo surpreendente, revolucionário, atitude inaceitável para uma mulher em pleno século XIX — digo, XXI.

É isso mesmo: nós discordamos. E mais — sim, tem mais — em alguns casos, expomos nosso ponto de vista.

Pequeno levante histórico: lá pelo século passado, isso era motivo suficiente pra mandar uma mulher passar uma temporada numa casa de repouso e indicar aquela lobotomia. Felizmente — ou não — em 2017, só te tacham como mal-comida e chata mesmo.

E ai vem outra questão, e essa envolve amor-próprio e saúde mental.

Com o tempo, mudar de posicionamento — o que é absolutamente normal. Problemático é ficar a vida inteira acreditando na mesma coisa — é natural. Como aprendemos no Rei Leão, isso faz parte do ciclo da vida, ou pelo menos deveria. Por isso, pode ser que algumas amizades nos deixem desconfortáveis, ou simplesmente não sejam mais a mesma coisa que eram há um ou dois anos atrás.

Isso não é motivo para ninguém se auto-flagelar. Ou pelo menos, não deveria ser.

E essa transição não é algo exclusivo apenas das mulheres treteiras. Mas de todo mundo.

Às vezes, você encontrou sua essência na religião, e aquele seu amigo ateu começa a provocar debates apenas com a intenção de colocar suas crenças em xeque. Isso te desgasta, te entristece e você se afasta.

“Ah intolerante! Não sabe conviver com outros pontos de vista!”

Você, como mulher, se encontra no feminismo. Logo, seus amigos homens (e até mesmo amigas), que fazem piadinhas sexistas frequentes, começam a não parecer tão legais quanto eram antes. Você, aos poucos, para de frequentar os mesmos roles.

“INTOLERANTE!!!”

Você se assume homossexual, e de repente, seus amigos começam a fazer comentários que te deixam incomodado e piadas em relação a sua sexualidade. Você para de falar com eles.

“Nossa, mas como esses LGBTs são intolerantes, nossa senhora”.

E vice-versa. Sabe aquele colega seu, que curte umas pages de Liberalismo Econômico e a galera faz umas piadas com ele por isso — e, lógico, ele acaba se afastando da turma? Então.

“Mas agora eu tenho que me afastar de todos meus amigos que possuem pontos de vista contrários aos meus? Isso não seria intolerância?”

Pergunta bem importante essa, inclusive. Para responder, devemos pensar em duas coisas bem simples:

1 — Seus amigos respeitam teu ponto de vista? E com respeitar, quero dizer: não provocam debates só com a intenção desvalorizar seus valores e crenças, não fazem piadas e comentários que sabem que vão te deixar desconfortável e nem tentam mudar sua posição na base do grito e da chacota?

2 — Seus amigos são uns babacas? E com babaca quero dizer, qualquer um que não respeita as crenças, opiniões, espaço individual do coleguinha e acredita ser o sabe-tudo do rolê.

Se a resposta for negativa para a primeira pergunta e afirmativa para a segunda, talvez você tenha razão em se afastar desses amiguinhos, que de brothers não possuem nada. Agora, se a resposta for afirmativa para a primeira questão e negativa para a segunda, eu recomendo que você faça a famosa auto-avaliação pra se certificar de que a babaca não é você.

O pior babaca é o que não reconhece que é um babaca (ou seja, a maioria).

O ponto-chave é: se afastar de pessoas babacas não te torna um babaca. Se aquela amizade de anos não te faz mais tão bem, cair fora dela não te torna um monstro.

Na real, isso pode te poupar de várias dores de cabeça.

Pessoas mudam.

Amizades mudam.

E isso é normal. É até mesmo necessário em alguns casos.

E lembre-se: jamais sacrifique sua saúde mental e sua individualidade em nome de uma broderagem que não é recíproca.