Capítulo II — Ballet

O cabelo bem puxado, com o coque na altura das orelhas. Uma faixa rosa que impedia os fios rebeldes de atrapalharem os olhos, inebriados pela delicadeza cintilante da sala de espelhos. Sapatilhas confortáveis, um collant, meia calça. Uma saia borboleta me fazia ir rodopiando pelas ruas, na ponta dos pés.

Foi a primeira vez que ouvi Tchaikovsky. A doçura invadiu os poros, antes de chegar à pele, arrepiada. Um dilúvio se instaurou nas vísceras, pequeninas, ignorantes, desprotegidas.

Voltei para casa, aos prantos. Minha mãe, aflita, veio com um copo de água com açúcar:

- O que houve, querida?

- A professora pôs uma música muito linda, mamãe.

- E por que isso te fez ficar assim?

- Porque eu não sabia que a beleza doía tanto…

Acho que esta foi a primeira vez, Pedro, que eu soube dessa nossa condição. Não havia aprendido as palavras, escritas. Nada imaginava do amor, romântico. A música foi o despertar da incompletude, em minha alma.

É bom, contudo, quando as dolorosas fragilidades têm gosto de brigadeiro, ou de gemada. Eu fui feliz ao aprender os sentimentos, a escrevê-los, ao compreendê-los, ao desdenhá-los.

Eu te mostrei, mais tarde, aquele poeminha da Cecília Meireles, sobre a bailarina:

A bailarina

“Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá

Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.”

Você me perguntou, na altura, por qual razão eu não queria dormir como as outras crianças. Por que a madrugada sempre me foi uma companheira, apesar das galáxias que habitavam o céu do meu quarto. Por que eu alimentava a luz azul na sua cabeceira, se era hora de sonhar. Eu respondi que, às vezes, os maiores dos nossos sonhos são concebidos em vigília, à revelia dos anjos que protegem o ninar.

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