Bagagem

O caminho de onde eu trabalhava até em casa pareceu mais longo. Talvez porque meus passos que lentamente caminhavam por necessidade, agora também hesitavam por medo. Era um dia incomum e eu precisava aceitar a ideia de que, daquele momento em diante, era assim que seria.

Quando cheguei ao meu prédio, o único verde da rua, procurei inconscientemente nas correspondências um bilhete. Contudo, apenas encontrei a chave deixada na portaria, fato que deixou o porteiro muito curioso. Criei coragem e subi, quieta, e o elevador parecia se arrastar até o 5º andar. Meu coração palpitava. Eu ainda não tinha tido coragem nem de dizer em voz alta que tínhamos nos separado, muito menos de contar a alguém.

Abri a porta e o apartamento parecia igual, mas a sensação era de vazio. Mesmo avistando na estante meus livros de vitivinicultura e meus discos do Dylan. Meus quadros estavam alinhados - ele sabia o quanto eu detestava quando estavam tortos. Agradeci internamente. No fundo, acho que meus olhos ainda procuravam na decoração algo que lembrasse vividamente dos últimos 3 anos, mas eu não conseguia perceber a falta dos objetos dele que antes faziam parte do ambiente.

O quarto, a grande testemunha do que vivemos, estava repleto de fotos. Mas fotos, sem as lembranças, pouco representam. Ele não representava mais nada e isso, na verdade, era algo ainda mais difícil de aceitar. Era árduo crer que o mais essencial tinha se tornado tão dispensável, tão “esquecível”. Eu estava mais triste por perceber que o nosso amor tinha acabado do que pela falta que ele me fazia. Era apego. Eu rondei o apartamento inteiro buscando indícios que me convencessem de que eu o amava. Eu me recusava a renegar os últimos anos.

Procurei então uma caixa, na qual estavam guardadas todas as declarações que ele — como bom escritor — escreveu para mim. Reli todas. Não chorei com nenhuma. Eu me senti insensível. Quando esses bilhetes tinham se tornado anônimos? Era como se eles tivessem se tornado citações e ele, por sua vez, parte da decoração, a qual eu já nem notava. Queria sentir falta, mas não sentia. Queria continuar amando, mas não amava.

E, no nosso fim, estava eu mais incomodada com a falta de um bilhete de despedida do que todo resto.

Foi então que, revisitando os bilhetes, notei algo diferente: todos os dias que deixávamos de fazer coisas juntos, mesmo as triviais, nos afastávamos. E, a cada bilhete, ele se despedia sem eu perceber. “Eu levo comigo tudo que é meu e que me faz falta em você”, foi o que ele deixou por último. E assim que eu finalmente reparei que faltava o relógio vermelho da parede da sala.

Sentei e sorri.

Esse texto é uma versão do que foi originalmente publicado em um site chamado “Garganta da Serpente” em 2007.