Quiromancia
Quando eu segurei pela primeira vez a sua mão, ela parecia um pouco áspera. Seus dedos, de tanto estalar, tinham tomado uma forma grosseira. Eu lembro de segurar firme e tentar memorizar cada linha, pois precisava saber de cor todas as suas histórias, como se aquele conjunto fosse uma estrada sinuosa que o tivesse levado até mim. Por um momento, pensei em todos os outros caminhos que vieram de encontro ao seu, mas que passaram apressados, deixando apenas mais uma marca para eu memorizar.
Nesse dia, achei curioso o quanto se pode encontrar conforto na brutalidade, mas só quando se quer muito.
Com o tempo, nossas linhas curvas andavam tão juntas que o encontro era bom, mas era também trivial. Parecia ser adorável apenas por deixar o coração tranquilo. Foram anos de um abraçar de mãos intuitivo. Era um pouco como respirar: vital, mas mecânico.
Algumas vezes, eu procurei sua mão na hora de dormir, e a segurei até pegar no sono. Mas o que eu mais gostava era que, quando entrelaçadas, você às vezes acariciava minha pele suavemente com o polegar. O ritmo era tão doce que soava como o mais visceral dos "eu te amo".

Muitas foram as vezes em que nos magoamos reciprocamente e, mesmo assim, minha mão sempre procurou a tua e, com todas as forças, nos reuniu. Eu não era capaz de deixá-lo ir. Não ainda. Mas o tempo é o senhor de todas as coisas, e com a mesma intensidade que ele fortalece, também deteriora.
Houve um momento em que peguei na sua mão e ela parecia como uma cama fria, em algum lugar que eu já não conhecia. A falta daquele sentimento de pertencimento me invadiu. Senti que era hora de nosso caminho passar, como os outros tantos passaram, de deixar de resistir e tentar segurar aqueles sentimentos que não eram mais os mesmos com tanta força. Já era mais apego que afago.
Então, aquela mesma mão, que era meu lar, meu repouso, minha certeza, tocou a minha pela última vez. Engraçado como a gente nunca presta muita atenção nessa hora, pois não espera que aquele encontro pode ser o derradeiro. E que, depois disso, daquele caminho restarão apenas lembranças, marcas para outra pessoa memorizar.
A linha da cabeça. A linha do coração. A linha da vida. Ímpar.
Mas, sabe, eu recordo bem do último momento que, indo no sentido oposto, a sua mão escorregou pela minha. Lembro daquele último toque, leve, quase imperceptível. O último respiro do nosso amor não tinha mais forças.
Depois disso, nós já nos reencontramos muitas vezes, mas nunca mais nos encostamos, nem para um “oi” impessoal. Então é por isso que te escrevo essa carta. Eu escrevo pois pode ser que você nunca mais segure minha mão, e também que a sua mão áspera já tenha encontrado um outro repouso. E que, talvez por isso, você nunca soubesse a profundidade da marca que deixou em mim. Até agora.
Texto: Mariana Porto.
Imagem: Barbara Dziadosz.
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