Mamíferos ou o mito da autossuficiência

(Este texto foi inspirado numa roda de conversa intitulada “Como percebemos o que percebemos” com Lia Diskin no SESC Campinas no dia 9/08/2016.)

Os mamíferos são filhos do cuidado.

Os humanos, em especial, são tão dependentes que sequer sobreviveriam se alguém não lhes cuidasse durante a vida toda. São os únicos animais no mundo que chegam desavisados, sem saber sua real função na lógica do coletivismo. (Mesmo porque a nossa lógica está sendo experimentada desde que o mundo é mundo.)

Explico: as formigas sabem exatamente o que têm de fazer para que o formigueiro funcione harmoniosamente, as abelhas também, os lobos, os peixes. E você? Você demorou meses para aprender a rolar, um ano para ficar em pé, mais de dois para se fazer entender, treze para ser apto para a reprodução, algumas dezenas para atingir a independência social. Somos a espécie mais lenta do mundo.

Ontem minha avó fez 97 anos. Ela precisa de cuidados como precisou no primeiro mês de vida: alimentação, higiene e carinho. Logo percebemos, essa é a regra, é imprescindível o cuidado no início e no fim da vida.

Mas Lia vai além. Quem nos disse que entre juventude e os muitos anos de vida poderíamos viver sozinhos? Quem nos enganou dizendo que ao comprar um apartamento e escolher morar só faz de nós menos carentes de cuidado?

Se seu vizinho não cuidar do gás de cozinha dele possivelmente você e seus outros vizinhos não estarão seguros. Se ele não cuidar do próprio lixo, sua casa ficará infestada por bichos. Você precisa do cuidado dele.

Precisamos desse cuidado indireto, precisamos de toques e conversas profundas, trocas e empatia, precisamos quebrar essa casca que vestimos para parecermos perfeitos/desapegados/bem-sucedidos/plenamente felizes e cuidar uns dos outros para que possamos entender a que viemos nesse mundo. Acho que é isso, só o amor salva. Amor é cuidado.