23 de outubro

“Como vou sair desse labirinto?” — John Green

História sempre foi a minha matéria preferida, história do Brasil principalmente. Acho fascinante a linha do tempo brasileira, um verdadeiro efeito dominó que acabou por culminar num país. Tudo às coxas, desde a chegada da Corte Portuguesa, já nascemos como bode expiatório. Eu costumava achar bonito como todos os eventos aparentemente desastrosos desencadearam, com muita luta de um povo sofrido, na nossa — tão jovem — democracia. Mas agora, sinto medo.

Shakespeare tem uma frase que diz que homens são homens e às vezes, esquecem-se que são humanos. Eu não concordo com ele, um homem nunca se que esquece de que é um ser humano, um homem nunca se esquece de si, esquecem-se, na verdade, do outro. Homens são homens e às vezes, esquecem que outros homens também são seres humanos.

Não são tempos sombrios, são tempos perversos. Foram tempos sombrios da primeira vez, mas agora, todo mundo tem noção do que está acontecendo. Já passamos por isso. São tempos perversos porque as pessoas não querem somente o melhor para si, querem o pior para o outro que enxergam como diferente de si.

Os homens não só se esqueceram de que os outros também são seres humanos como também passaram a enxergar os outros como se estes fossem qualquer coisa, menos seres humanos.

Não é mais uma questão de votar num candidato ou noutro, votar num partido para barrar o outro. É sobre supremacia. Auto-afirmação. É sobre ser branco, heterossexual e rico, colocando na cabeça de todo mundo que o mundo é assim: branco, heterossexual e rico. Se você é pobre, tem que trabalhar até ficar rico, se você não é heterossexual, seja, porque é uma escolha, e se você é preto, bom, há diversas formas de embranquecer você. E é assim, se não for, vai ser na base da porrada.

Casal gay, separa na porrada. Lésbica, estupro corretivo. Adesivo de um candidato, arranca e bate pra votar no outro. Discurso de oposição, ganha no berro. Preto andando de moto na favela, mata, vai que é bandido. Bate. Mata. Grita. É isso. Do homo sapiens ao australopiteco, e não o contrário.

Eu estou com medo.

Estou com medo porque sou mulher, lésbica e pobre. Estou com medo pelas minhas amigas pretas, pelos meus amigos gays. Estou com medo pelas crianças que tem sua educação negligenciada, pelos que passam fome, estou com medo por todo mundo que não é branco, heterossexual e rico, porque se está ruim: vai piorar. Já está piorando. E se você não está percebendo, é porque se esqueceu também.

“Como vou sair desse labirinto? Esse é o mistério, não é? O labirinto é viver ou morrer? De qual deles está tentando escapar?”

Sinceramente, agora eu não faço ideia.