TRÊS SEMANAS

A moça, do outro lado da vista, de camisa roxa, 
pendura na janela uma camisa
Azul, quase roxa 
e também o que parece um pano de prato
(como será que eu estou pra ela?)
Abaixo, há uma outra sala de jantar
 — — — — — — — — imóvel — — — — — — — — 
E abaixo há outra, 
e outra
Até que se descem o que suponho sem contar serem dez andares

Um pouco à direita há uma sala de estar esverdeada por
Samambaias
E na debaixo, bonitas ráfias

São três da tarde, o horário oficial do 
Tédio — e do inicio da sessão da tarde, que é basicamente a mesma coisa
E nem se pode comer pra evitar o vazio
Porque você acabou de almoçar

Entre nós um ônibus
E eu me pergunto, no barulho da cidade quase
grande
cadê meus livretinhos de poesia? Não chegaram na caixa de ontem
A que veio pelo correio
Que bateu aqui no um dois um e veio com tudo o que eu tenho dizendo que agora eu sou de
Daqui.

No último andar de lá há uma escadinha de metal
E como não posso ver
Ela dá no céu
Esses dias eu também acordei e vi em minhas janelas
centro do centro de Porto Alegre
Papagaios verdes (tão verdes quanto as samambaias da vizinha)

Na quinta feira eu voltava para casa e fui pensando
Com o gravador de voz do celular e um barulho de rua atrás
(Ficou bem poético, eu diria, dava pra usar numa peça contemporânea, dessas que ninguém entende nada porque não fala mesmo nada)
Será que existe isso de uma coisa só, de verde ser verde e não ser azul e mesmo que tenham todas aquelas gradações entre um e outro as pessoas — e eu também — ainda reconhecem 
Azul, verde
Mas eu nunca aprendi de fato a ser uma só e hoje sei disso
(então como será que me reconhecem?)

Estendo meus pés para fora da janela porque ela é alta, eu sempre gostei de altura 
Me disseram que dava vontade de saltar, eu também acho mas não disse nada, né? Que espécie de pessoa vê uma janela e quer pular?
As que estão entediadas de usar os pés só pra caminhar, é verdade.
E eu sinto o ar passar por mim, sou quase tão livre quanto no mar
Exceto pelo fato de que não.

Li uma vez que só reconhecemos as cores porque denominamos elas e faz pouco tempo que enxergamos o 
azul
Tudo era roxo, mesmo o céu
E tem uma tribo que vê muitas cores no que só vemos uma tonalidade específica de
verde

Eu me resignei a não ter resposta para essas coisas
Elas tem muitas e nenhuma e isso é exatamente o mesmo.
Desde então me refugio em poemas 
Procuro por todos aqueles meus queridos livros de poesia
Na caixa que veio, em vão.
Então vou ao armário,
à mala que foi posta agora mesmo no maleiro
Elenco os nomes deles em minha cabeça
Com alguma dificuldade, 
me surpreendo 
Percebo: nunca tive nenhum.