Oi. Posso falar um pouco sobre relacionamentos?

“aproveita que tu tá solteira, tem ninguém te cobrando responder no whats, nem controlando o que tu faz”

Como assim? Como assim relacionamento é sinônimo de posse? Tu já paraste pra pensar o quanto de machismo há na tua postura em seu relacionamento? Já refletiu sobre se aquela pessoa que tu és durante um relacionamento condiz com quem tu sempre achou ser? Na real, tu realmente sabe o que da tua vida faz parte do que tu acredita, gosta, se identifica e o que é uma criação do você em um relacionamento?

Admito que na minha vida toda nunca me encaixei em um grupo, mas me preocupo que dessa vez não me encaixo por me apavorar com o conceito de relacionamento que há no imaginário da grande maioria. O mais apavorante é que não vejo uma real discussão sobre essa definição de relacionamento. A moda é discursar a inexistência de ciúmes quando se é solteiro, mas ao encantar-se por alguém se passa a dizer que o ciúmes é meigo e vira sinônimo de gostar. Toda a possibilidade de desprendimento do clássico discurso sobre relacionamentos parece ser perdida. Pra mim ciúmes não é ok, nunca o foi, não deve fazer parte da rotina, é apenas egoísmo, apropriação da vida do outro, geralmente controle de círculos sociais de alguém. Foda-se seus valores sendo desrespeitados e tu sentir medo para estabelecer um nível de intimidade na relação, estar com aquelx amigx é excelente, pois ele passou pela aprovação de seu namoradx. Tenho uma teoria que é assim que tu começa a morrer. O que tu faz e com quem tu anda em algum momento passa a necessitar pré-aprovação do parceiro, a única diferença em cada caso é a quantidade de coisas em que esse controle acontece e o que tu consegue driblar com mentiras que são muitas vezes uma forma de fuga dessa situação. Passamos anos reclamando do controle dos pais, porque agora aceitamos com brilho nos olhos cobranças e presença constante de alguém até tempo atrás totalmente desconhecido? “Mas isso é o amor”, desculpe, amor é o que te faz ser o melhor daquilo que sempre existiu em ti, não é baixar a cabeça e aceitar a dor de uma censura.

Eu chamo as gaiolas existentes em relacionamentos de machismo, não de amor. A proteção que se apresenta como controle; o medo de estar sozinho que muitas vezes nos faz entrar em relacionamentos sem confiança e recheado de ciúmes; o sentimento de reciprocidade que só é considerado real quando gritado ao mundo (no caso, postado em todas as redes sociais) ou quando aquela mensagem é visualizada e respondida na hora; a mudança de modo de vida que limita o existir de duas pessoas de forma individual porque está lá, escrito no manual, namorar é fundir totalmente rotinas e estar junto o tempo inteiro, saber tudo um do outro. Só é considerado real se nossas postagens juntos foram frequentes no Facebook, seguimos aquela frase que manda “cuidarmos do que é nosso”, se conhecemos todo o círculo social um do outro, se fazemos viagens românticas com direito a muitos chocolates acompanhados de rosas. Uma cena de final feliz de filme romântico, é isso, procuramos um amor de filme, a cópia perfeita da felicidade dos protagonistas. Deu certo com eles, é só copiar que dá certo contigo. Tenho outra teoria que procuramos imitar a arte dos romances por falta de conhecimento do que realmente somos e o que nos faz felizes, nossos reais valores e lutas. Estou falando da sua individualidade como pessoa. Pense, qual ser complexo e único está por trás desse nome que carregas? Outros conhecem ou você o deixou preso por medo de não ser aceito?

Discurso isso e muito mais sobre o assunto faz tempo, acho que amor é quando duas pessoas se permitem a intensidade de ser aquilo que se é sem medo algum do outro fugir. Faço materialidade dessa ideia em forma de texto quando me vejo completamente decepcionada em relação ao conceito de relacionamento afogado em um machismo disfarçado de amor e que segue um contrato que nega a individualidade de cada um. Nesse cenário, a impressão que tenho é que existe uma grande chance de eu perder a identidade de Maria e passar a ser apenas a namorada, isso assusta e sinto que ameça a complexividade do ser que eu sou.

Ideias radicais? Talvez, afinal estou apavorada com o conservadorismo que mata aqueles que como eu não se sentem encaixados nesse tipo de namoro clássico. “Maria, tu tá carente”, estou mesmo, outros tantos estão seja por indignações semelhantes ou por outros motivos seus. No meu caso, sou um universo de pessoa que não se vê valorizado nem libertado porque a merda do machismo me apavora e eu não consigo confiar em absolutamente ninguém para criar uma relação. Sou constantemente hipersexualizada, com valores desrespeitados e sem nenhum voto de confiança sobre ser verdade aquilo que sou. “Tu joga sinuca?” acompanhado de um olhar de descrença, “ata que tu gosta de Beatles, não mente” em um situação em que ele mostrou seu lado de fã primeiro, “isso é um conhecimento das exatas, como tu sabe?” e tantas outras frase que quando escuto ferem a Maria que eu sou.

Tenho 22 anos e estou descobrindo que, é fato, o mais simples é o mais difícil de achar em relacionamentos. Criamos a imagem do outro perfeito pra ocupar a vaga de mozão sem realmente se importar em conhecer a pessoa. E ser mozão é seguir um padrão cheio de detalhes insanos. Me diga, como ser você ao mesmo tempo que deve seguir cada linha do manual de relacionamento criado por outros?

Acho que vale trabalhar numa teoria sobre quem queremos agradar com nossas escolhas na nossa vida amorosa. Namoramos por gostarmos um do outro ou porque nossa união foi aprovada por amigos e famílias e a partir disso se criou uma pressão para estarmos juntos? Acho que isso vale para um próxima vez, se eu não sofrer demais com o possível discurso que pode se referir a este texto como uma total mentira, porque sou mulher e é meu natural ser infantil e possessiva, isso tudo é só uma tática para um joguinho visando conquistar algum cara. Por favor, eu não sou o Barney do How I Met Your Mother, mas sei que sou incrível, e no meu caso, é por saber que sou real. Achas que preciso de joguinho? O joguinho é só uma introdução ao relacionamento machista do manual, comigo não rola. Até.

Maria Ana R. Krack

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