Aparentemente

Amanhece mais um dia. A rua está vazia e parece um cenário da vida real. Os personagens surgem aos poucos e tudo acontece como os olhos já estão acostumados a observar. O silêncio é quebrado pelos primeiros movimentos da vida cotidiana dos moradores em seus apartamentos. Há um prédio residencial antigo. Vários porteiros. As lojas: de aviamentos, revistas, chocolates, cadeiras de roda, sapatos, jóias, computadores, padaria, salão de beleza e papelaria. Os funcionários dos prédios e os donos das lojas acordam mais cedo para reafirmar que, naquela rua da capital mineira, está tudo em seu devido lugar. As portas da rua estão sendo abertas. É de manhã e tudo acontece, aparentemente, da mesma forma. Aparentemente: o mesmo andamento dos carros, os jornais sendo entregues à banca de revistas, a mesma melodia do encontro de diversos sons incessantes, o ritmo apressado das pessoas, a pulsação lenta e contraditória do andar dos idosos, a espera paciente e lenta das manicures por seus fregueses. O falar gritado e agudo da faxineira do prédio, o cochicho entre os donos de lojas, o bom humor fabricado pela pré-disposição do dono da mercearia.

Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Crianças saindo e chegando das escolas, mães à procura de um consolo maior para os filhos, lavadores de carros trabalhando, adolescentes matando aula no bar da esquina. Os acontecimentos são fiéis aos olhares cotidianos. Olhar sem pausa para uma vida que segue na mesma pulsação. Olhar sem pausa. Olhar sem pressa. Olhar acostumado e contaminado. E as luzes do dia também são fiéis ao costume e à espera desses mesmos olhares. Luzes que anunciam, sempre da mesma forma, a chegada ritmada da manhã, o sol forte do meio dia, a lentidão do entardecer e o sossego da noite.

Para os olhares que criam um distanciamento, e conseguem observar o cenário daquela rua em seu silêncio, ficarão, inicialmente, as imagens construídas e sempre resgatas pelas pessoas dali. Imagens que oferecem a sensação de que tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas, no silêncio daquela rua, pode-se escutar um segundo ritmo do coração daquelas pessoas. São os seus sonhos, que nunca acontecem da mesma forma. Ritmo diferenciado de corações, muitas vezes, descompassados num apego ou desprendimento. Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Esses olhares sem pausa e sem pressa observam apenas — e pacientemente — a mesma aparência da vida cotidiana em uma só pulsação. Já o olhar em silêncio, é capaz de observar os sonhos e as modificações, e é sensível a novos ritmos e melodias. Um olhar que vai além da escuta corriqueira daquela rua, que consegue observar os movimentos suaves e as coisas invisíveis. Tudo acontece da mesma forma. Aparentemente. Mas basta uma sutil transformação do cenário: a falta de um personagem, a mudança do horário ou a alteração do ritmo de um sonho, que o olhar silencioso, esse que existe no centro da gente, torna-se sensível ao vazio intangível a qualquer forma acomodada, sem pausa e apressada de levar a vida.

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