Embora fosse outubro, caía uma chuva torrencial em Havana. “Esse era para ser o período seco aqui. Mas já não se pode prever nada, tudo está mudando”, dizia a dona da casa onde eu me hospedara dias antes, como quem não se refere só ao clima. A tempestade se misturava à água do mar, que invadia as pistas da avenida da praia em ondas revoltosas, ameaçando os glamurosos calhambeques, dos anos 1930, os reluzentes chevrolets dos anos 1950 e os bricolados Fiat 147 e Lada, dos 1980, que ousavam trafegar ali.

O aguaceiro empurrava para dentro de um recém-aberto “Sport bar” quem quer que passasse pela rua. O lugar, uma rara lanchonete “particular” emulava bares americanos, com fast food, telões, bebidas coloridas e garçonetes em decotes e minissaias. Cada novo cliente trazido pela chuva era saudado com um mojito, uma macarronada, um suco de mamão.

Até que um homem negro, alto, de olhos muito brancos e brilhantes, adentrou o lugar. Vinha fugido da chuva, mas não só. Vestia uma capa e roupas de frio um pouco sujas e algo estranhas para o clima local. Nas mãos, um saco plástico preto. A barba rala e grisalha dava conta de que ele já passara dos 50 anos, mas não há muito. Entrou e ficou parado por um tempo como a se convencer da própria condição. Olhou ao redor. Deu 3 passos vagarosos até chegar à mesa de um casal de cubanos que se refestelava em pratos de spaghetti. O que disse era inaudível, mas evidente.

O rapaz cubano tentou desviar o olhar, a moça pareceu comovida. A cena durou longos segundos, até que ela sacou a carteira da bolsa e passou-lhe algumas notas de Cuc, a moeda estrangeira cubana que, equiparada ao dólar, é um fetiche nacional maior que o beisebol ou o futebol. O homem, no entanto, não expressou êxtase diante das notas. A moça tampouco pareceu aliviada. Um garçom atlético se aproximou do homem. Disse-lhe que não poderia pedir mais nada ali. O homem não contra-argumentou. Lançou-se de volta à tempestade. Um reggaeton passou a sequestrar os ouvidos dos clientes. As garçonetes iam e vinham em seu frenesi de drinks e gordas gorjetas. O casal voltou a dedicar-se ao spaghetti. A figura encharcada perdeu-se de vista na avenida.