“O sol está dentro de mim”

Mariana Augusto
Aug 22, 2017 · 3 min read

No começo desse ano, eu decidi fazer um livrinho de agradecimentos. Escrever pelo menos um motivo, a cada dia, para estar grata. Os motivos podiam ser os mais variados, desde a compra de um sutiã novo até a compra de uma passagem aérea. Desde uma semana sem furos na academia até um trabalho novo. Era difícil escrever apenas uma razão. À noite, quando sentava para escrever, haviam sempre muito mais acontecimentos que eu queria deixar registrado do que espaço suficiente naquelas folhas pequetitas.

Era uma sensação boa, a sensação de que eu tinha muito, ou as vezes nem isso, mas a sensação de que o “pouco” que eu tive naquele dia era suficiente para me fazer ficar agradecida, orgulhosa, feliz.

Em julho, mudei de cidade outra vez, o verão chegou, as agitações também, e eu acabei por perder um dia ou dois no meu caderno de agradecimentos. Como algumas folhas ficaram vazias no meio do caminho, eu achei que não faria sentido continuar a escrever sem antes completar aquelas espaços em branco. Passaram um dia, dois, vários, e eu acabei deixando o meu caderninho. Deixei também o hábito de registrar coisas boas, porque não tinha mais um objetivo concreto como antes. Mas continuei feliz, bem feliz.

A experiência do caderninho me fez pensar em duas coisas interessantes: primeiro pensei em como às vezes parece que a felicidade precisa da falta pra se estabelecer. Eu fico feliz por comprar um sutiã novo porque não tinha um suficientemente bom antes. Fico feliz por comprar passagens aéreas porque sinto falta de quem está longe. Fico satisfeita com a comida que tenho na geladeira porque imagino como é não ter nada para saciar a fome. Fico contente com os amigos que tenho porque imagino dias apáticos sem a presença deles. A gratidão parece estar na percepção de que tenho o que alguém não tem, ou de que eu mesma, em algum momento, não tive.

Mas eu também pensei que nos dias em que não tive aquele sutiã ou as passagens aéreas eu também estava feliz. Por alguma outra razão qualquer. Não fiquei feliz por ir a academia, mas fiquei feliz por ter comido um pedaço de bolo. Não fiquei feliz por ter passagens aéreas, mas me senti grata pelas pessoas que tinha ao meu redor. A gratidão é amiga da comparação, mas também da percepção. O agradecimento é o resultado da direção pra onde eu escolho levar o meu olhar.

No final das contas, a felicidade não é uma coisa, não é uma pessoa, não é uma sensação, não é um lugar, não é uma conquista, a alegria é uma decisão, é um jeito de decidir enxergar. E a gratidão são os óculos precisos que refinam essa visão. Que colocam os detalhes na perspectiva certa, e levam a cenários cada vez mais nítidos, num raio de visão cada vez maior.

É um ciclo vicioso maravilhoso. Eu enxergo uma paisagem bonita, coloco os meus óculos, e contemplo paisagens ainda mais bonitas.

Lá na minha casa, a gente tem um bordão que nos acompanha a muitos anos. A frase foi dita pela minha mãe no carro em uma das muitas viagens que fizemos em família. Em um momento de tensão qualquer, e diante da implicância de um com o tempo nublado, minha mãe gritou, meio histericamente: o sol está dentro de mim!

A alegria é assim. É o sol que tá lá quando faz chuva, quando o tempo abre, quando é dia ou noite. Uns dias mais escondidos, outros menos, mas sempre lá.

Resumo da história: vou voltar a escrever no meu livrinho. Não que eu não esteja feliz, é que é sempre bom enxergar melhor.

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Mariana Augusto

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De meio lá meio cá, fico completa.