A feira dos pássaros

O que é um bom dia para você?

Quinze meses morando na cidade de São Paulo. Como diria uma amiga que fiz aqui, “admiro, mas não invejo” quem nasceu nesse lugar e acredita que ele é o melhor do mundo.

O melhor lugar do mundo não é físico. Eu olho para fora e o que impressiona mesmo são as sensações da rua, o jeito como pequenos rituais se desdobram diante dos seus olhos atentos e se alheiam aos olhos cansados, ou vidrados em mini telas.

Aos despertos de alma, o espetáculo do mundo se desdobra, discreto e deslumbrante nas mesmas medidas, todos os dias.

Há meses abro as janelas pela manhã, mesmo agora, no frio. A janela da sala é meu posto de observação preferido. Do outro lado, há um homem que não conheço, mas que amo. Sei o suficiente para ser grata a ele.

Ele mora no quinto andar do prédio da frente, cuja sacada exibe um lindo mosaico de cacos que formam a figura de uma flor, um copo de leite em fundo azul. Esse homem tem cabelos brancos, é alto mas curvado. Nos dias de calor, sai sem camisa até sua varanda, munido com sua tesoura de jardinagem, aparando arestas das plantas. Nas costas, uma grande pinta negra que me fez chamá-lo do Hombre de la mancha ( como um certo cavaleiro de outros tempos de glória).

Quando me atrevi a fotografá-lo

Nos dias amenos, não é difícil vê-lo de branco. Nos dias de frio, usa um casaco azul com capuz. Hoje mesmo estava com ele e um telefone (fixo!) quando foi dar uma espiada na varanda. Ele tentava ver o que eu mesma enxergo todo dia se acordar cedo:

Seu pequeno cultivo de plantas ( já teve tomates, flores, ervas) esta sempre acompanhado de um vaso de barro que fica no parapeito, cheio de terra e do que só posso imaginar que sejam sementes. Elas atraem todo tipo de pássaros em diferentes horários. Se acordo antes da sete, é possível ver andorinhas madrugadoras.

Quando me atraso ou me permito dormir até as dez, só me resta observar pombos carcomidos, que decerto pegam a xepa da varanda. Mas é nesse intervalo de horas, entre as seis e as dez, que a mágica acontece.

Bem-te-vis. Rolinha-roxa. Beija flor. Cambacica, que pra mim é um mini bem te vi. João de barro. Um dia, vi um pássaro negro sozinho, de tarde. Fiquei contrariada, e as más notícias chegaram em seguida. Há algumas semanas, coração cheio de saudade em plena manhã de sábado, vi dois piriquitinhos verdes, como os que moravam na minha janela em Brasília. Comprei passagens na mesma hora.

Hoje eu vi dois sanhaçus cinzentos, com aquele reflexo azulado e achei que era enfim o momento de compartilhar essa história. O Hombre de la mancha colocou a cabeça para fora e eles voaram. Na maioria das vezes, é o que acontece. Quem mais vê as criaturas atraídas por ele sou eu. E por isso sou infinitamente grata e o amo. A bondade que fazemos é para os outros. Qualquer migalha (ou alpiste!) do bem que fazemos ou oferecemos pode alegrar alguém nesse mundo e principalmente nessa cidade que tanto precisa. Hombre de la mancha, o meu desejo de um bom dia hoje é para você!