O Brasil é um só?

como me apaixono todos os dias pelo meu país apesar de TU-DO

Nos últimos tempos, me vem constantemente à memória os primeiros sons da sanfona de Luiz Gonzaga; Rerê, Rarê…Rerê…Rarê Rarê! Minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz…

Still do filme “ Viajo porque preciso, volto porque te amo” de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz

Viajar. Para alguns, um incômodo no âmbito pessoal e ainda mais maçante na vida profissional. Para mim, uma das grandes vantagens do meu trabalho atual e um atrativo imenso para vagas no futuro. Não ficar todo dia no escritório? Mudar de cidades como os dias da semana? Encarar escalas duvidosas em aeroportos do interior? Count me in.

Esse ano, visitei Fortaleza, Brasília minha terra natal, Patos de Minas, Pedreira, Holambra, Campinas, Ubatuba, Ribeirão Preto, Santos, Porto Alegre. Curitiba. Escrevo de São Paulo, cidade onde decidi morar há quase dois anos. Antes que vire o ano, pretendo rever o Rio de Janeiro e Parati, Pirenópolis e São Jorge, Belo Horizonte e sua praça da Liberdade e seus queijins e minerices. Conhecerei Bento Gonçalves e cidadelas adjacentes cujos nomes ainda não pesquisei. Se Iemanjá quiser, ainda pulo minhas sete ondinhas numa praia escondida na Bahia quando virarmos esse ano.

Porquê esse log de viagens para quem está lendo? Ora. É que vejo desflorar, em mim e em outros, num eterno retorno, esse nacionalismo, essa vocação para amar a pátria que surge no país a cada 2 gerações e meia, mais ou menos.

Em Curitiba, eu comi uma vina ( que é salsicha ou linguiça). Em Brasília véi, não dá pra ignorar o cheiro da seca pelo ar de agosto. Em BH um trenzin qualquer pode estragar o trânsito de carros. No Ceará, admirei uma família enorme, toda junta ao redor de mesas de plástico na praia, martelando carangueijos e mastigando devagar as sílabas das palavras, num sotaque ensolarado.

Em Porto Alegre, lagarteei ao sol no Bric do Redença, além de comer um negrinho e um branquinho (!). Tive vontade de abraçar estranhos só por eles serem exatamente daquele jeitinho.

Em Poá

Questões de viagem e de família

Meu avô paterno, antes de ser taxista, foi motorista de caminhão. Passou para minha mãe e chegou em mim essa paixão pelos pedais, esse pézinho de ferro, essa vontade de devorar quilômetros de asfalto, sem rumo. Minha mãe, do alto dos seus 1,50 m, metia as 3 meninas no Chevrolet Kadett e pisava fundo.

Meu pai, mineiro e professor, me enviou uma planilha de Excel ( ele leciona Contabilidade) no último julho de férias escolares ( uma saudade morosa, essas tais férias escolares). Ele atingiu a substanciosa meta de visitar 100 cidades em 30 dias, entre os estados de Minas, Bahia e São Paulo.

Ele mesmo nos acordava as seis da madrugada de um domingo seco para atravessarmos o estado do Goiás, a fim de almoçar feijão tropeiro em Cristalina. Acho que, misturado com esse tropeiro forte e gorduroso ( vendido até hoje no posto JK), comi pé de coelho na infância, parece, e nunca mais quis parar de ir a qualquer canto que fosse, mesmo nas situações mais precárias.

Que país é esse?

Depois de reclamar e combater e me opor a Copa de 2014, e ver tudo cair por terra no minuto em que o primeiro apito fez a bola rolar, me eximi de comentar qualquer aspecto das Olimpíadas 2016. Não falei nada, mesmo. Aproveitei a conveniente posição de jornalista fora de uma redação e nada disse sobre o assunto. Assisti calada e fui muitíssimo surpreendida com a abertura no melhor estilo Gambiarra orquestrada por Fernando Meirelles, Deborah Colker, Andrucha Waddington, Abel Gomes, Daniela Thomas.

Assisti feliz as tão merecidas medalhas de ouro do país, comemorei as minorias nos pódio e senti o coração na boca com as finais de futebol e vôlei.

Fiquei pensando que, puxa, num ano como esse, o Brasil merecia essa dose de autoestima e alegria, duas coisas necessárias para clarear a visão, sacudir a poeira das crises ( política, econômica e psicológica) e dar impulso para se criar o país que queremos ser. Mas o entusiasmo com as Olimpíadas veio tão rápido quanto foi embora, parece um sonho, uma espuma dos dias.

Mas que país é esse? O Brasil é um só?

As provocações acima são de Renato Russo em sua música mais que icônica e do cineasta ceilandense Adirley Queirós no longa premiado ‘A cidade é uma só’?Uma música, um filme e uma caipirinha. Sim, uma caipirinha. Ou um pão de queijo, ou um belo dum brigadeiro, que seja.

Eu acredito, sem inocências, que existe nestas áreas, cultura, gastronomia e turismo por tabela todo um potencial de união. Sim, somos um país de proporções continentais.

Sim, existem diferenças enormes entre estados, entre cidades, entre classes. Mas temos em comum a língua portuguesa, que, bem ou mal, nos possibilita por exemplo a criação de memes risíveis nas 27 unidades da República. O Brasil pode não ser um só, mas, no mínimo, ele é uma família. Daquelas grandes, onde tem quem fale alto, quem fale arrastado, tem a prima chata o tio bebum o sogro grosseirão, mas amoroso.

O que se configura agora, esse mal estar, essa ressaca moral, essa falência de tudo em que se acredita também poderia ser o dia seguinte de um grande encontro de família. Esses políticos também são o que somos.Essa corrupção, esse desencontro, essa crise psicológica, faz parte também dessa nação. O que está, está, mas não é a totalidade do que somos, nem a potencialidade do que podemos ser.

Esses problemas também são nossos. Isso tudo também deve passar.

Um baiano, um paulista e um goiano sentam no bar. Você termina a piada e o que fica?

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.