camel blue e a assertividade pelo amar.

preciso falar uma coisa pra você. ontem, na volta pra portalegre, trouxe um livro meu que estava na casa dos meus pais, enfim, tenho outros livros, tenho um mundaréu de livros pra trazer, mas trouxe apenas um (os outros me prometi trazer quando tiver meu apartamento — e o terei ainda esse ano), e eu decidi trazer a náusea, do sartre, e acabei relendo algumas partes do livro no ônibus.

acho muito interessante a forma como ele fala no início de que algo tinha mudado. que a forma como segurava o cachimbo e o garfo havia mudado, que não era assim, e só poderia ser ele o elemento metamorfoseado.

fico pensando agora. as pessoas são educadas pra possuírem assertividade nas coisas. serem decididas. se decidirem pelo fim de um relacionamento, se decidirem pelo aceitar uma separação, se decidirem. e serem resilientes nisso, superarem.

eu não tenho assertividade nas relações humanas. não aceito as coisas como elas são, principalmente quando leio que você ficou mal pelo término, quando me leio no twitter muito mal todos os dias e que você se sente mal lendo, achando que coloco a culpa em você. quando ainda existe desejo, quando ainda se sente saudade do corpo e da voz e não se pode dizer e mostrar, da presença que nunca me machucou e do quanto aquilo faz falta, eu pergunto se ter assertividade do fim é sensato ou loucura; uma loucura que você acredita ser a melhor para o momento. não temos nada pra resolver das brigas. elas existiram, não há o que fazer. se existiram, é porque algo ficou não-dito, algo foi escondido, algum feedback não foi dado pra mim, mas para os seus amigos, que mais sabiam sobre todos os seus passos do que a pessoa com quem você saía — e que você acreditava que daria certo e permaneceria com você depois da sua indecisão. e veja, aqui, que você não tinha a assertividade do fim até então. se decidiu por isso porque as verdades ocultadas foram jogadas na mesa (do bar). você se viu exposta — na mesa (do bar), contando o que não havia me contado (e não tinha me contado tudo ainda). decidiu pela assertividade do fim quando sentiu seu ego ferido — mas o meu não tinha problema em ferir por meses, a mariana aguenta o baque. você decidiu por você, pelo que não poderia mais controlar, já que eu sabia de muita coisa do que se passava em você.

é possível aceitar o fim sufocando um sentimento? lembrar com saudade do que se viveu? entender que seu momento é diferente do meu e que apenas isso nos trouxe desentendimentos, mas o querer estar perto e se curtir era algo que não tinha morrido. sufocar um sentimento: melhor caminho? essa é a assertividade que te indicaram ser a melhor? é a assertividade que sua consciência, que te fez cagar em erros depois de erros como a minha consciência me cagou com você, tentando achar solução pra…sentimento? e quando você não escuta o que sente, nem o que sentiu enquanto estava comigo, nem refletiu sobre esses desejos e vontades — como isso pode ser uma assertividade justa?

me incomoda porque não me conformo. não me conformo com essa assertividade passiva e negligente dos fatos — manipulados. e não me refiro ao jeito com que seguro o cachimbo, com que seguro o garfo, com o jeito que você segura a xícara pra tomar café ou segura a colher. me incomoda como a assertividade é usada para ser um conformismo nas nossas vidas. o conformismo nas relações humanas. o quanto ser assertivo é considerado evolução, quando não se questiona isso: será mesmo que uma atitude assertiva não é, na verdade, uma atitude que se veste de assertividade quando é puro conformismo? quando é mais fácil apontar os erros e dizer: estou decidindo terminar por esses e esses erros, quando na verdade se cega aos acertos e se tem preguiça de mudar — mudar o que se é necessário?

será que todas as relações humanas necessitam disso? porque parece que as pessoas só são coisas dos quais você aprende lições e se engrandece, mas você não permanece com as pessoas. você permanece com as coisas. e então me questiono se as pessoas são apenas um novo modo de segurar o cachimbo, de segurar a xícara para o chá, de segurar a colher e o garfo, de deitar em direção ao norte na cama. são agremiações dos quais as personalidades se vestem. mas e aquilo do qual se vestiu e se amou por vários momentos, onde fica? pra onde foi? se era verdade, onde está essa verdade? diminuída pela negatividade do que era incompatível e se aumentou pra justificar os conformismos? por que fui retirada da forma mais polida, revestida com assertividade, julgada internamente como pesada e louca pra ser mais fácil a sua individualização, o seu voltar-se para si, para as suas necessidades, com exceção, é claro, de prestar atenção em sentimentos como a saudade, o desejo, os sentimentos bons que você tinha por mim? vale a pena sufocar seus sentimentos em função do seu ego?

o que é o outro nisso tudo? o que sou eu nisso tudo.

quando chega o fim? eu nem preciso perguntar ao sartre. eu poderia escolher conscientemente pelo fim de uma relação por vários motivos — seus motivos são plausíveis, nossos momentos são diferentes —eu decidi pelo fim quando bloqueei você e ali eu caguei — mas como matar uma saudade? como matar esse desejo? as lembranças pessoais que foram maravilhosas? pode-se, obviamente, segurar o cachimbo de um jeito diferente. mas a vontade de um camel blue e um isqueiro ao invés de cachimbo vai me torturar lentamente a cada uso do cachimbo, a cada uso diferente do cachimbo.

o meu olhar para o cachimbo mudou, não é mais o mesmo. mudou em função de uma escolha errada, que daremos conta disso, sozinhas, com nossas consciências, daqui a cinco anos, no máximo. trilharemos a partir daqui usos diferentes do cachimbo, escondendo de si e se enganando internamente de um desejo por camel blue esquecido num ponto da cidade. onde está a verdade que eu encontrava olhando fundo nos seus olhos e me deixando ser invadida por você?

você se decide pelo fim todos os dias de algo que não se permitiu viver. todos os dias você vai segurar o cachimbo de um modo diferente — várias metamorfoses forçadas quando a leveza significa aceitar que se sente saudade — e essa tenho orgulho de dizer, aqui, que não sufoco com baforadas de uma tragada que não é a forma e sabor do camel blue neurótico que tratei de deixar pra lá.

aqui eu trato minha raiva e meu ódio, sua indiferença e o seu seguir em frente com um verdadeiro recado de que eu amo, não nego, não penso em matar esse amor, apenas em vivê-lo. eu protesto contra o seu conformismo vestido de assertividade fina.