Você tem tempo a perder?

Mariana Zanon
Sep 9, 2018 · 4 min read

Eu não.

Trabalho e converso com muitas pessoas de diferentes ramos, círculos e classes sociais. Uma situação em comum (muito comum mesmo), e que sempre me chamou a atenção, é a quantidade de pessoas que estão infelizes no seu trabalho. Na verdade, vejo este número de insatisfeitos aumentando cada vez mais e mais. Faço, por meio deste artigo, uma reflexão.

Comecei a trabalhar aos 17 anos e, fazendo uma conta simples, se eu trabalhar até aos 65 anos, terei trabalhado 118.580 horas. Isso dá, aproximadamente, 165 meses ou, se preferir, 14 anos ininterruptos de trabalho. Eu falei 14 anos! Neste cálculo, não estão computadas as horas dedicadas para o meu desenvolvimento profissional (escola, faculdade, pós-graduação, mestrado, doutorado, aulas de línguas, cursos extracurriculares, leituras de livros voltados para o trabalho…). Nesta conta, também não considerei as horas que gasto falando do meu trabalho enquanto estou fora dele, me queixando de quanto isso ou aquilo me magoou e de como o meu dia foi estressante. Não considerei as horas que fico pensando em como darei conta de X e Y ou as horas dedicadas para reorganizar a minha agenda. Não somei as horas de insônia que foram ocasionadas por questões profissionais. Nem a quantidade de horas que gastei preenchendo os quadrantes de urgente-importante, urgente-não importante, importante-não urgente, não importante-não urgente, com o objetivo de organizar minhas demandas e me tornar mais produtiva. Também não inseri aquelas horas em que dei uma olhadinha nos meus e-mails naquele sábado, domingo, feriado e, nem tampouco, as horas extras que realizei.

O que eu quero demonstrar é que a minha dedicação para o trabalho é muito superior aos 14 anos ininterruptos que calculei acima. É, sem sombra de dúvida, o pilar da minha vida que possui (e possuirá) mais horas de dedicação. São muito mais horas do que as que eu passarei com as pessoas que amo. Mais do que passarei dando gargalhadas e falando besteiras (saudáveis e no bom sentido, é claro!). Mais do que as horas que eu dormirei para recuperar as minhas energias. Muito mais do que eu dedicarei para desenvolver a minha espiritualidade, fazendo trabalhos voluntários ou qualquer outra coisa que possamos imaginar.

Espero que até aqui tenhamos concordado em um ponto: são muitas horas em jogo para escolhermos vivermos de forma infeliz ou tratar como se fosse uma obrigação. Gostaria que você parasse para refletir o que realmente te faz infeliz no trabalho. É o trabalho em si? A rotina que você tem, as atividades que você faz, os desafios que permeiam o seu dia a dia? Ou são as pessoas (algumas delas)? As atitudes que elas têm, a falta de respeito, o mal humor, a insegurança que reflete em ações descontroladas e, muitas vezes, até desumanas? Claro, existe a insatisfação que ocorre devido ao fato da pessoa não estar contente com a profissão ou cargo que ela está ocupando. Mas, na maioria das vezes, o que faz as pessoas infelizes são as pessoas! Pela minha experiência, estimo que de 85% a 90% das insatisfações no mundo corporativo são oriundas das pessoas com as quais você tem que conviver no seu trabalho.

Não podemos “desperdiçar” essa quantidade de horas, dias, meses, anos, em um ambiente insalubre e que promova o adoecimento. Não, não quero que você saia do seu trabalho. Sou defensora da ideia de que o ambiente de trabalho pode — e deve — ser prazeroso. Mas, para que isso mude, precisamos “começar pelo começo”. Este início deve ser por nós mesmos. Acho que devemos começar a repensar a forma como conduzimos o nosso dia a dia. Quero que você pense em atitudes e ações que estão ao seu alcance e que possibilitarão construir um ambiente de trabalho mais leve, mais produtivo, agradável e menos hostil. Novamente: para que o todo mude, precisamos iniciar mudando a nós mesmos. Se você ainda está lendo o artigo até aqui, pode estar pensando: “Ah, Mariana! Que coisa mais clichê!”. Parece clichê, parece óbvio, mas não necessariamente é. Precisamos falar sobre isso. Quando tomamos consciência de que somos parte do problema e de que a solução (que é algo muito profundo e enraizado) também depende de nós, isto faz com que mudemos a nossa forma de pensar. Começamos a pensar de forma mais estratégica e iniciamos um dos processos mais importantes que eu vou chamar de limpeza e força individual. Deixamos a zona do vitimismo e passamos a dedicar a energia para tentar fazer a diferença. Pense em como você pode colaborar positivamente para um melhor ambiente profissional.

Não, isso não significa que você não vai mais sofrer ou se indignar. Mas significa que você estará mais alerta, mais atento e com um olhar buscando por soluções. Significa que você não é mais ingênuo e que estará preparado para o que virá, mas de forma construtiva e não destrutiva. E essa mudança da forma de ver este cenário, pode ter certeza, é um excelente começo.

E, não se engane. As quantidades de horas não representam apenas a minha estória. Representam a sua também. Eu te pergunto: você tem tempo a perder?

Mariana Zanon

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