Treino/exercício sem finalidade para mim, mas com grande significado para a personagem

Espiando uma promoção relâmpago de livros na tela do computador com o olhar perdido tentando encontrar os menores preços disponíveis. São aqueles bonitos, de capa dura, da cosac naify, que nem existe mais. Então é bom ter. Nem que seja só ter por ter. Nenhum dos autores selecionados aos menores valores havia me chamado previamente a atenção, mas até vale uma pesquisa, já que, é só nove e noventa cada título. Fechei a aba sem querer. Porra. Mas porque dizer agora e não ter dito quando vi no ônibus seu nome pixado, aliás, escrito com canetinha preta no encosto do banco da frente. Naquele fim de tarde desci antes do ponto meio assim, meio assado, meio amargurada e cai de cara no olho do redemoinho da rua. Fiz um corte na testa e todas as pessoas ao redor meio que souberam de súbito o que estava se passando dentro dos furacões dos meus corações, como se eles saltassem dos meus olhos e o diabo tivesse diante delas orquestrando todo aquele tormento em curso. Quis rezar como sempre faço quando me vejo de olhos marejados, atônita e sem rumo. Segurei minha guia. Segurei forte e meio disfarçando, pois aos que estavam em volta já bastava o sangue e a expressão de nem sei o que. Não estava me vendo, só digerindo e tentando prosseguir, mas deveria esperar o próximo ônibus que passaria naquele ponto. Deveria. Mandei tudo à merda e fui andando até o outro mais adiante para espairecer os sentimentos a me cortarem a pele recém-tatuada no Estúdio do Xandão. Meu braço doeu no traço do desenho, mas as dores de dentro doem com certeza mais do que o girassol embrulhado em papel filme no meu ombro esquerdo e isso aprendi com você no tempo que passamos juntos. Andei até o próximo ponto e depois até o outro e continuei andando até não saber ao certo onde estava e me lembrei da vela posta dentro da bolsa antes de sair, na esperança de que hoje a acenderia na encruzilhada conforme me foi orientado e eu confiei. Olhei no olho e confiei. Olhei no olho e confiei. Olhei no olho e confiei tantas vezes que me falta energia para a contagem, mas naquele dia eu confiei que tudo iria melhorar. Ajoelhei, coloquei fogo no pavio e rezei as santas almas, aos fantasmas que me acompanham e pedi para nunca mais pegar aquele ônibus, mesmo que para tal eu precisasse mudar de casa ou de plano ou de rota. Fiz tudo olhando para os lados. Não precisava de nenhuma outra surpresa. Meu corpo ventou, meus ombros endireitaram como só depois de uma reza acontece e então sabia que não mais estava sozinha. Seu Zé com certeza passou. É como se os movimentos do meu pulso estivessem sendo monitorados e então segui um pouco mais confiante em frente. Achei outra parada de ônibus e logo dei sinal. Vi teu nome de novo.

.Caralho.

.Que merda.