De papo pro ar

“Você não acredita como eu me importei com você, como eu reparava nos teus cacoetes, ouvia tua voz e pelo tom eu percebia como andava o teu humor, como eu sabia bem dos teus horários, teus macetes, eu poderia ter escrito teu diário, tanto que eu te conhecia.” — Martha Medeiros


Será que foi assim? Não éramos bons? Ou éramos tão bons que chegamos a ser demais para este mundo? Eu ainda te encontro? A gente ainda se esbarra? E se eu for, será que você me espera na plataforma do trem? E quando eu voltar, você me acena com um lenço branco e de tanto não aguentar a despedida me pede para voltar?

Os ventos fazem um barulho imponente e eu quase me assusto. Ergo os ouvidos para ouvir melhor, como se pressentisse um chamado, mas já não é a sua voz. As coisas mudaram.

Eu estou falando sozinha, sentada em uma praça, dentro de um parque. Gesticulo como se você estivesse a minha frente, me ouvindo interessado, se antecipando às minhas respostas. É que eu preciso muito falar. E preciso muito que você me ouça. E preciso que os meus braços me ajudem e que as minhas mãos empurrem as letras mais difíceis e que os meus olhos se apertem para que eu saiba a hora de me calar para sentir antes de falar mais.

É tanta coisa guardada, tanta história. E tanta vida, que eu guardei para te contar. Eu vivi tanto, que cheguei aqui afoita, cansada, como se tivesse corrido meia maratona. E eu só estava vivendo. Eu vivi como vive qualquer pessoa. Tive os meus dias de luta, os meus dias de glória. Tive os meus ferimentos de guerra, as minhas cicatrizes. Tive sonos tranquilos, pesadelos, insônias. Tive sonhos. E nem neles eu mais te encontrei.

Então, falo com o vento, que se impõe e se apresenta. Na sua ausência, eu preciso fingir que sou criança e que converso com um amigo imaginário.

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