Um Freire, a Norma e por uma Educação Popular

Este texto está sendo escrito na semana em que comemoramos o “Dia do professor”. É, portanto, inspirado em todas aquelas pessoas que dedicam sua vida à educação, mas não qualquer educação.

Imagem da parede do local onde dormi quando visitei a ENFF

É interessante que eu esteja hoje cursando direito. Pois direito é muito visto como o estudo das normas e, que feliz coincidência, Norma é o nome de minha avó — uma senhora que nasceu na campanha (zona rural) em 1934 e veio para a cidade estudar. Em São Borja, uma cidade não tão urbana da fronteira oeste do Rio Grande do Sul (rodeada de latifúndios e muito pouco desenvolvida), morou com outra família que não a sua, que lhe fornecia o necessário para o estudo e a qual Norma ajudava nas lidas domésticas. Uma trajetória muito comum ainda nos dias de hoje para quem nasce no campo. Ou melhor, para quem nasce no campo sem-terra ou sem grande propriedade, e cujos recursos para o acesso à cidade e à educação se tornam escassos. Norma era filha de um casal de trabalhadores rurais, cujos patrões eram da família Vargas.

A minha avó se tornou educadora por um motivo surpreendente. Terminado o hoje equivalente ao Ensino Médio, casou-se e teve quatro filhos e duas filhas. Meu avô construía casas [era pedreiro, engenheiro e arquiteto, mas não detinha os títulos de engenheiro e nem de arquiteto]. Norma decidiu tornar-se professora ao observar sua irmã trabalhar. Era inovador para ela essa história de mulher que trabalha fora de casa, já que até então sua experiência era apenas nas lidas domésticas ou no campo. Foi entrar em sala pela primeira vez na condição de professora aos 29 anos, em 1963 — foi concluir o Magistério em 1975, e formou-se em Pedagogia em 1978.

É mais interessante ainda que cursando direito, a faculdade das normas, eu tenha desenvolvido uma paixão particular pela educação. Digo que é interessante porque a educação praticada em uma Faculdade de Direito não é exatamente a educação pela qual eu desenvolvi a paixão. Explico: as aulas de um curso de Direito são, em geral, cansativas e pouco pedagógicas, com uma metodologia que muitas vezes se reduz ao professor-que-fala (ensino)/estudante-que-escuta (aprendizagem) mecânico, a qual um senhor chamado Paulo Freire viria a chamar de “bancária” e “acrítica”. Freire! Freire teve um papel importante nessa história, afinal. Freire também cursou direito.

Prosseguindo: em 2013, um ano após meu ingresso no curso de Direito, tive a oportunidade de ir com um grupo de extensão [o SAJU/UFRGS] para a Escola Nacional Florestán Fernandes, um grande centro de formação do MST. [Parênteses: meu contato com o movimento havia se dado no início da minha adolescência, quando com 13 anos fui a um ato pela Reforma Agrária no Foro Central de São Borja. Não estabeleci nenhuma proximidade maior, no entanto, e restringi-me a acompanhar notícias do Movimento]. Chegando na ENFF, num encontro de extensões populares do direito, pela primeira vez participei de debates cujo referencial teórico principal era Paulo Freire. Falavam em uma tal educação popular.

De lá para cá me debrucei à práxis da educação popular. E com isso descobri as inúmeras contradições que a circundam. Não há um consenso sobre o que é educação popular, de que forma ela deve se dar e quais referenciais teóricos deve seguir. Seria pretensioso, para não dizer surreal, definir “a” educação popular e ignorar a disputa que há em torno dela. Nossa dificuldade em conceituá-la e praticá-la, contudo, não deve ser empecilho para se alinhar por uma educação popular. Estou, ainda, descobrindo-a.

Há uma passagem em a “Pedagogia da Indignação” de Paulo Freire que diz o seguinte: “Se os sem-terra tivessem acreditado na ‘morte da história’, da utopia, do sonho; no desaparecimento das classes sociais, na ineficácia do testemunho do amor à liberdade; se tivessem acreditado que a crítica ao fatalismo neoliberal é a expressão de um neobobismo que nada constrói; se tivessem acreditado na despolitização da política, embutida nos discursos que falam que o que vale hoje é ‘pouca conversa, menos política e só resultados’, se, acreditando nos discursos oficiais, tivessem desistido das ocupações e voltado não para as suas casas, mas para a negação de si mesmos, mais uma vez a reforma agrária seria arquivada”.

Freire, assim como a minha avó, viveu dois processos ditatoriais. A maior parte de sua obra foi escrita em plena vigência de um dos períodos históricos mais violentos da América Latina, o qual não podemos sequer mensurar em corpos, porque muitos deles jamais foram achados. Em meio há um momento político extremamente conturbado, de completo extermínio das lideranças revolucionárias comunistas, resistia um senhor escrevendo sobre socialismo.

Freire dedicou sua vida à educação, mas na Pedagogia da Indignação e em outros escritos deixou registrado os limites dessa via. Dizia ele, nesta obra, que “reconhecendo os limites da educação, formal e informal, reconheço também a sua força, assim como porque constato a possibilidade que têm os seres humanos de assumir tarefas históricas”.

A educação popular de qual fala Freire se trata de um instrumento para emancipação da classe trabalhadora. Um instrumento, não um fim e si, tampouco “o” instrumento. Uma via para que assumamos tarefas históricas. É porque entendia Freire, da mesma forma que eu entendo, que alguns impulsos em nossa trajetória podem-nos inclinar para determinados espaços. Mas sobre isso falarei em outro momento.

Por ora, aproveitando a semana de homenagens, retorno à Norma. E se Norma, como na passagem citada por Freire sobre os sem-terra, nunca tivesse saído do campo para disputar a cidade? E se, chegando na cidade, nunca tivesse saído de casa para disputar o trabalho?

Não sabemos.

Poderia eu, ao ter sido criado pela Norma e estar hoje cursando uma faculdade de normas, sem ter conhecido um Freire, reduzir-me a estudá-las (as normas) como são, sem questioná-las e incentivar as demais pessoas a questioná-las.

Não sabemos.

O que sabemos é que a Norma, filha de trabalhadores rurais, saiu do campo e foi para a cidade, cursou Pedagogia e criou uma neta que cursa a faculdade de normas. Essa neta não aprendeu a indignar-se com(o) um Freire, mas através de um Freire aprendeu que existem pedagogias de educação, e que podem ser importantes instrumentos para sairmos da solidão que Freire um dia esteve ao ver tantos companheiros tombarem no caminho, para massificar as lutas e compartilhar nossa indignação.

Norma não conheceu o mesmo Freire que eu, embora tenha cursado Pedagogia. Era católica, como Freire, mas nunca se indignou com o sistema, não ergueu bandeiras revolucionárias em grandes atos, construiu grandes lutas de massas ou organizou-se em grupos insurgentes. Como a maior parte do povo tem estado. Apaziguada, Norma seguiu sua trajetória. A qual eu poderia ter observado e seguido da mesma forma.

Mas não consegui. Porque desejo que um dia a Faculdade de normas se transforme em faculdade de Normas, Marias, Joãos, e outros tantos trabalhadores que não detêm acesso à educação formal. E não quero que na faculdade de Normas a educação seja com base da pedagogia hoje das normas, bancária e acrítica. E, por fim, não quero que a faculdade das Normas seja um espaço deslocado da realidade, para poucos, onde os muros nos protegem do sistema que massacra e oprime.

E agradeço à Norma, e aos grupos insurgentes em meio à faculdade das normas, que me permitiram elaborar esse texto.

É tudo (!) isto que chamo de educação popular. E é para todos os atores desse processo que, neste dia “do professor”, dedico essa reflexão.