É preciso estar doente para buscar ajuda psicológica?

Psique Criativa
3 min readJun 4, 2018

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Perguntada por um amigo recentemente, resolvi responder aqui.

Não. Para os que têm dúvida, saibam que a psicoterapia visa integrar o ser humano com seus lados sombrios, pouco aceitos pelos outros ou por ele mesmo, torná-lo mais inteiro, menos dividido, em suma, completar o círculo para que não seja unilateral, evitando sofrimento.

Fernando Pessoa define bem:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

E se ainda restam dúvidas, seguimos com exemplos práticos: fazer psicoterapia é a tentativa de que aquele ser racional e pragmático possa encontrar e identificar melhor seus sentimentos e intuições e saber expressá-los e segui-los, preservando assim as suas relações mais próximas. Ou ainda, que aquela pessoa emotiva e em ebulição, acalme seus tormentos e equilibre seus potenciais do intelecto e da ação. É a possibilidade de sentir-se bem estando a sós consigo mesmo para aquele que só encontra satisfação no contato com o mundo externo. Ainda poderia seguir com vários casos, mas posso dar um respiro pra explicar antes o porquê é tão difícil alcançar isso isoladamente, já que o conteúdo a ser trabalhado é, antes de mais nada, coletivo.

Esta finalidade existencial tão básica de integrar opostos depende muito de como lidamos com nossos conflitos, inadaptações, relacionamentos de casal, dificuldades familiares, de sentido de vida, dúvidas. Tais dificuldades são coletivas e milenares, quer dizer, são arquetípicas. Logo, são eixos fundamentais ao redor dos quais nossa espécie vem se debatendo e/ou se aprofundando coletivamente. Como herdeiros destes dilemas existenciais, transitamos em relações humanas disfuncionais e, em alguns casos mais graves, chegamos ao ponto da doença, não apenas de ordem psíquicas mas também de ordem fisiológica. Nos dias atuais, já se torna cada vez mais difícil aplicar soluções pré-moldadas e os tais “eixos” precisam ser bem resolvidos num nível subjetivo (interno) para depois alcançar expressão no mundo.

Dessa forma, para estas doenças da alma, obviamente, as medicações que tratam o corpo não são suficientes. A prática “normalizadora” das instituições religiosas e médicas vem nos enquadrando desde a Idade Média, muitas vezes desconsiderando nossos comportamentos como adaptações às mudanças culturais e sociais. Isto é, as indicações para diagnosticar e chegar a medicar alguém, poucas vezes têm em conta o caráter determinante das condições socioeconômicas e da psique coletiva. O que se busca é silenciar o sintoma.

Dito isso, quero lembrar que a Psicologia Analítica vem para promover o encontro entre as expressões e as necessidades da psique. Guiados por Jung, recordamos que não se trata apenas de saber como domar e subjugar a psique; é preciso que saibamos um mínimo sobre o desenvolvimento da alma ou das suas funções para que em um nível cultural mais completo o desenvolvimento possa substituir a dominação.

Quando passamos a ver o cliente como portador de uma mensagem, que pode inclusive ser coletiva, a doença nesse caso pode ser, no máximo, o sofrimento que a todos atormenta.

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