Amigos de Oi

Outro dia, soltei uma pergunta para um dos meus colegas:

– Ei, você tem amigos de Oi?
– Amigos de que?
– Amigos de “Oi”!
– Não sei o que você quer dizer com “amigos de Oi”…

Amigos de Oi são aquelas pessoas que você, por algum motivo, vê com frequência, mas não sabe absolutamente nada sobre elas. São aquelas pessoas que pegam o mesmo ônibus que você, sempre no mesmo horário, você as vê acidentalmente na rua, na academia e em outros lugares públicos. Ironicamente, a relação parece se tornar tão íntima que passa a ser falta de educação não dizer Oi. Afinal, você já conhece aquela pessoa. Você já reparou na roupa dela e até percebe mudanças de humor. Vocês já se sentem “amigos” mesmo não sendo verdade. E se alguém perguntar de onde conhece aquela pessoa, você provavelmente responderia “ah, é só amigo de oi…”

Normalmente essa relação começa com um olhar, depois vira um olhar seguido de um cumprimento com movimento de cabeça, depois vira “oi!”, “Eae?”, “bom dia!”, “boa tarde!”, “como você está?”… Tudo bem natural…

– E então, você tem amigos de Oi?
– Hmmm… Acho que não. — e virou para fazer outra coisa mais importante.

Eu continuei ali, ainda mergulhada nos meus pensamentos, pensando nos meus amigos de Oi e sentindo falta deles. Estranho sentimento que de tão natural, nunca achei que fosse fazer falta.
Mesmo morando na Califórnia, que supostamente é um estado mais amigável, ainda sinto falta de criar relações baseadas no simples gesto de cumprimentar com a cabeça e dizer um Oi.

Um triste adeus aos meus amigos de Oi…

Eu pego o mesmo transporte público para ir para o trabalho todos os dias, vejo sempre as mesmas pessoas, caminho pela mesma rua. Eu deveria ter vários amigos de Oi. Mas os smartphones raptaram a capacidade humana de interagir com as pessoas ao redor. Talvez elas estejam muito ocupadas dando “oi” para outras pessoas no Whatsapp ou Facebook. No trem que pego para o trabalho 90% das pessoas estão distraídas com laptops ou smartphones. E não acho que é porque estou no Vale do Silício, vejo esse comportamento espalhado em todos os lugares!

David Lytle

Frustrada, tirei 15 dias para fazer um teste. Saindo de casa para o trabalho, do trabalho para casa, resolvi dar “Oi” para um grande número de pessoas. Em geral, elas me respondiam bem, algumas me olhavam com uma cara de “te conheço?”, algumas outras me ignoravam, o importante é que a maioria respondeu bem. Entretanto, por algum motivo, depois dos 15 dias, não consegui criar relações, nenhum amigo de Oi de verdade. Notei que quando os “ois” ou cumprimentos com a cabeça se tornavam consecutivos, as pessoas consideravam a situação inconveniente ou desconfortável e passavam a me evitar, quase como se eu tivesse um interesse além de ser só amiga de Oi.

Um experimento interessante que só me fez voltar para a tela do meu celular. Foi assim que parei com a brincadeira e deixei de lado essa história de amigos de oi. Agora só digo oi para os dog walkers com cachorros fofos.

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