~relato de parto ~

Dois meses se passaram e me lembro com nitidez daquele medo de menina que não sabia o que estava por vir.

A postura de uma gestante segura de si não condizia com o coração abarrotado de dúvidas, incertezas, tristezas, banzo do que aos poucos estava ficando pra trás.

Durante as 29 semana de dedicação a gestação (soube com 8 semanas) criei um repertório sobre parto humanizado. Foi o meu repertório que me conduziu a um desejo profundo de fazer acontecer. Na minha cabeça era simples assim: vou parir da forma mais natural possível. A razão era tão simples quanto: porque meu filho merece e porque eu mereço.

Minha data prevista do parto era dia 8/4. Parei de trabalhar dia 18/3 aflita porque perderia algumas semanas da licença. Mas o coração mandou parar e a cabeça já não tinha neurônios disponíveis pra continuar. Dia 19/3 o Chico nasceu (37 semanas e 5 dias).

Entrei em trabalho de parto às 2h da manhã. Primeiro sinal: uma diarréia dessas que elimina toda impureza do corpo! Segundo sinal: tampão. Terceiro sinal: líquido, não era a bolsa, mas o líquido amniótico que escorria aos poucos. Quarto sinal: contração, dessas de fazer perder a voz, impossível não mergulhar.

Uma contração não é uma dor, é sensação. Pensa pelo lado bom, imagina uma cachoeira com a água na temperatura certa. Impossível não mergulhar e sentir tudo que aquele momento te proporciona. Arrisco dizer que nada nessa vida te coloca tão presente, tão imersa e tão conectada consigo mesma quanto uma contração.

Ficamos em casa, Gui, eu, Deja (a vira-lata) e Renata (doula, psicóloga, floralista, professora de yôga, diva) até umas 8h da manhã. Rê me dizia com a voz mansa que eu estava indo muito bem, ela acompanhava e estimulava lindamente os sons que uma mulher na partolândia deve emitir. Tão importante se permitir gritar, gemer, grunhir.

Cris Balzano, obstetriz, também estava lá. Essa mulher emana uma força absurda. Ela me disse: “transforma sua dor em força”, e logo depois Chico nasceu.

Saímos de casa às 9h com 6cm de dilatação e o recado: não faça força agora, espera chegar no hospital.

Chegamos, entrei no São Luís como uma típica parideira: aos berros, feliz, plena e com a sensação que ele nasceria ali na recepção e que não daria tempo de chegar na sala de parto!

Logo nos encontramos com outra mulher iluminada, Ana Paula Portela. Obstetra humanizada, mãe de dois, calma, feliz por estar ali. A sua voz me dizendo que eu estava quase lá me levava até o céu! Quando eu pensava que não conseguiria ela me dava de presente a imagem do Chico chegando. “Olha ele aqui, já já você vai ver o Francisco e pegar ele no colo”.

Pronto, foram 3 ou 4 forças, 11:26 ele estava no meu colo. Imediatamente todo o medo, dor e desconforto desapareceram e eu fui INVADIDA (invasão mesmo, tipo sem pedir licença) pelo maior amor do mundo.

Ainda ligado ao cordão Chico veio direto pro meu colo. Tão quentinho, tão bonito, saudável, forte, logo encontrou o tetê.

Gui, que pariu junto, se emocionou junto. Cuidou de mim como o seu bem mais precioso. Cuidou do Chico como seu presente mais valioso. Cortou o cordão e ficamos ali, na sala de parto batendo papo e babando no nosso filhote. Sem dor, sem procedimentos bruscos, sem protocolo de hospital.

Vânia Gato, pediatra do Chico, também estava lá e só depois de 1 hora e 30 minutos me pediu pra levá-lo logo ali pra pesar. Nada de colírio, tapa na bundinha, limpeza excessiva. Somente o necessário e uma dose extra de amor e carinho.

No total foram 9 horas de trabalho de parto, nenhuma intercorrência, nenhum medicamento e nada de anestesia. Parto quiabo resultado da união de muita fé e uma equipe que ama o que faz.

Rê, Cris, Ana, Vânia, muito obrigada!

Gui, te amo ainda mais!

Chico, você é um guerreiro!

Gestantes, conversem, pesquisem, respeitem seu corpo e sua natureza 🙏

Chico nasceu com 47 cm, 3,750 kg, Forte, sadio, rosado e lindo