Façamos aqui uma análise meramente interna, sobre o dia de hoje. Interna, pois digo, pessoal e profunda de mim mesma e comigo.

O país se prostra num grenal escandaloso.

Meus amigos, ídolos e heróis contam os minutos para a angústia passar. Enquanto os outros batem panela comemorando o que não ganharam ainda.

E por ganhar, entendo, é ver o outro perder.

Porque dessa história, se o lado patóide e amarelo ganha, quem perde somos todos nós.

Incluindo eles, mas isso custa de se assimilar.

Estou do lado dos que idolatro, dos que me ensinam, dos que venero. E estou do lado de quem, nos últimos 20 anos, permitiu que eu andasse de avião, que eu tivesse computadores, que eu fizesse faculdade, que eu pudesse ter um carro, que eu quisesse encostar esse carro e apreciar minha cidade a pé, que eu pudesse ter minha casa, que eu consumisse teatro, música, cultura e, melhor, que eu tivesse espaço para produzí-la. Que eu fosse atendida por médicos sem pagar convênio. Que eu fosse um pouco mais livre.

E isso só por mim: mulher branca de classe média. Não ouso nem começar a falar sobre quem a vida mais foi mudada.

Estou aqui, olhando pras telas, vendo os meus lutarem contra o maior golpe das últimas décadas. E vendo toda a imensa massa de manobra espumante arrebanhar as ideias grotescas dessa camada manipuladora.

Força, país. Não vamos recuar.

Não vamos permitir.

Como bradou Jean: luto, pra mim, é verbo.

Hei de lutar.