Pedala, Robinho!

foto: Emiliano Capozoli

Há pouco mais de um mês comecei a andar de bicicleta em São Paulo. Era um sonho antigo: nunca me locomovi de carro, na cidade, porque não tirei carteira de motorista e, francamente, não nasci para dirigir. Ao contrário de muita gente, sempre achei o carro um limitador, o contrário de mobilidade. Por isso, virei adepta do pedestrianismo mas, no fundo, sempre quis experimentar a bike. É mais rápido, o exercício é maior e te leva mais longe.

Tinha muito medo de andar de bicicleta. Muito. Pedi a ajuda de um anjo, como são chamados os ciclistas mais experientes que topam te orientar e levar até os seus destinos quando você ainda não é lá muito ligeiro.

Pois bem, não demorou muito tempo para eu perceber várias diferenças do modal anterior para esse aqui. Meu anjo deu várias dicas importantes: sempre se atente em cruzamentos, porque nunca se sabe se alguém vai furar o farol; na subida, às vezes, você não precisa usar uma marcha tão leve — basta fazer uma forcinha a mais que vai mais longe; nunca fique tão à direita na via, porque os carros podem te jogar no cantinho e você pode cair; preste atenção na roda da frente dos carros para ver se eles vão virar à direita; e, é claro, respeite toda sinalização e lembre-se que a figura mais importante de todas é o pedestre.

Parece básico — e é, não tem muito segredo. Mas comecei com medo. O que foi bom, porque coragem em demasia talvez faça você perder a cautela. Fui devagar, então, tentando entender a dinâmica dos que ocupam as vias, e não as calçadas. Me surpreendi: até agora fui muito mais respeitada do que esperava. Aliás — pasmem –, fui muito mais respeitada enquanto ciclista do que enquanto pedestre. Imagino que por causa do calor do momento: o ciclismo está na pauta, as ciclovias fizeram muitas pessoas começarem a andar de bike, e os paulistanos estão tendo que aprender a compartilhar o espaço público.

Além disso, a bicicleta é um veículo. Apesar de você estar vulnerável, perante um carro, você ainda está na altura do motorista, o que parece empregar mais “moral” entre os tipos sociais que ocupam essa “cadeia alimentar”. O pedestre não tem veículo nenhum: ele está totalmente desarmado e, por isso, tende a ser mais negligenciado porque não tem nenhuma importância na “hierarquia” da locomoção. Que, convenhamos, já está na hora de ser superada.

Claro que o cenário está longe de ser ideal. Falta muito para os 5 milhões de carros aprenderem a conviver numa boa com as 260 mil bicicletas que se locomovem, diariamente, em São Paulo. Mas as ciclovias, as campanhas, e principalmente os ciclistas que estão na rua fomentando o respeito, a convivência e a educação no trânsito parecem estar ensinando bastante coisa para a sociedade.

Se você quer pedalar, mas tem medo, aconselho: comece. Se você já pedala e é craque, sugiro: ajude alguém que ainda não sabe. Quanto mais diversidade modal, mais fluido o trânsito, a convivência e a qualidade de vida em São Paulo.


coluna originalmente publicada na revista 29HORAS, edição de outubro

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