sobre o tempo

as coisas acabaram numa época que, por si só, força a barra da gente. essa necessidade ao nosso redor de que tudo tenha sido perfeito ou que seja no seguinte, a obrigação de fazer balanços e reflexões sobre o que passou.

acontece que, depois que acabou — e não me refiro a dois mil e quinze- , a última coisa que eu quero fazer agora é reflexão a respeito. não deu certo, paciência. teve um monte de coisa boa. um absurdo de coisas ruins. pois é. assim acontece com tudo na vida. não quero que meu fracasso amoroso entre na lista como um fracasso anual. são coisas completamente separadas que, infelizmente, coincidiram no tempo.

para lidar com isso, encontrei um método inédito, que é o de preencher os espaços temporais.

não penso mais no que vou fazer ou na qualidade daquilo. penso quantas horas vai ocupar minha cabeça, quanto tempo vai faltar para eu tomar meu remédio e dormir quando a atividade terminar. quanto tempo terei pra dormir sob o efeito do remédio se eu tomá-lo antes ou depois. se eu sair para almoçar, não tenho pensado em quem vou encontrar ou como vou me divertir. na minha cabeça aparece uma agenda que preencho em horas e minutos. qualquer coisa que ocupe meu tempo e não me traga necessariamente carga alguma.

é viver com a sensação de que o que tiver que passar vai ser depois. agora não é tempo pras coisas acontecerem. uma certa apatia que sempre foi o oposto do que fiz na vida, de como me comportei.

estaria errada?

antes ou agora?

seria por isso não deu certo todos esses anos anteriores? (ou deu certo, mas acabou, de qualquer maneira).

antes eu precisava preencher meu dia com pessoas, coisas, festas, conversas, livros, filmes. era uma aflição e um desespero pra ter coisas suficientes e pessoas suficientes para que meu dias passassem mais rápido e com mais experiências. (como era horrível e massacrante depender das pessoas e não de mim para isso).

agora eu preencho meus dias com… tempo.

não sei qual dos modos está errado. sei que a vida da gente acontece no agora, que o tempo é o presente e bla bla bla. não quero saber dessa conversa hoje, junto com aquela toda de final de ano e de que tudo tem que ser maravilhoso, a obrigação social de ser feliz e estar na praia tirando fotos com copos bonitos de bebidas.

agora é só agora e eu quero que esse agora passe.