Mariana Colombo
Nov 5 · 3 min read

Você até pode ser gorda, mas esconde essa barriga?

O corpo é nosso habitat natural, querendo ou não, gostando ou não. É dentro dele que estamos inseridos. Ele que nós transporta a todos os lugares, está conosco em dias de felicidade ou tristeza.

O corpo que muitas vezes passa desapercebido, numa função automática, que mesmo ao nos olharmos pro espelho, enxergamos mais a roupa que está por cima que as nossas curvas.

A minha relação com meu corpo é uma montanha russa de emoções. Muitos dias de amor, mas bastante de raiva. Sim, raiva. No dia dia com tantas propagandas e referências de corpos perfeitos, quando podemos amar os nossos? Muito se diz sobre empoderamento e aceitação, mas o que seria isso na vida real? Na fila do pão ou mesmo quando estamos numa festa e queremos ser notadas? O quanto já me senti invisível por não corresponder aos comerciais de lingerie ou de absorvente. Sim, até pra menstruar é preciso um corpo perfeito.

Atualmente, tenta-se, quase em vão, colocar novas referências de corpos, mas o que seria um se a realidade é 50%? Sim, quase metade da nossa população está com sobrepeso e porque é essa realidade que é vista em novelas e revistas?O que ser quer esconder? “Toma um aqui pra vocês não reclamarem”, isso não é representatividade, é um só pra constar! A gente não quer amostra grátis e muito menos biscoito (apesar de sempre acharem que a gente só come biscoito)!

Há cerca de um ano eu entrei pra um grupo de dança de carnaval. Como essa ideia de dança e de me sentir sensual mudou a minha relação com o meu corpo. Me ver dançando seminua (nem eu imaginava, mas tenho fotos pra provar) e me sentindo super desejada mudou a minha forma de me enxergar. Faço questão de em todas as apresentações colocar o máximo de corpo de fora pra ir contra o pensamento de que corpos diferentes devem se esconder. E servir de referência para outras mulheres fora do padrão. Uma vez quando estava comprando o tecido pro carnaval, uma menina gordinha me perguntou: “mas você tem coragem de sair de body?” e não achei que era algo me condenando, mas quase uma admiração pela minha atitude. A minha resposta foi: “ você devia experimentar, é libertador!” (Mesmo que muitas vezes até eu duvide disso. Mas tenha sempre uma pessoa aleatória gordinha no meio de uma loja de tecidos numa rua cheirando a xixi no centro do rio que te prove o contrário).

Há muito venho pensando em uma frase que serviu quase como um mantra (negativo) na minha vida, “você até pode ser gorda, mas esconde essa barriga? ( já até sinto o tom de voz dessa frase). Onde o até carrega esse peso? E qual seria a vergonha da barriga? Por que somos ensinados a nos odiar diariamente? Por que criamos uma população com problemas de auto imagem? Como se tivéssemos quase que pedir desculpa a sociedade por termos esse padrão, como se fosse uma ofensa.

Quando se escuta de professores de academia que o gatinha pra ir malhar seria se olhar nu no espelho, isso nos ensina a nos odiar. A odiar o que somos. Mas quando começamos a contrariar esse tipo de lógica e a questionar, somos tidos como sem humor. Talvez a sociedade ainda não esteja pronta pra encarar um bando de pessoas fora do padrão que simplesmente se ame (nem sempre, mas está tudo bem também).

O quanto é difícil escrever sobre isso, pois seria quase como expor uma ferida ao mundo, mesmo sabendo que algumas pessoas podem abri-la ainda mais. O quanto isso me torna vulnerável. Porém, é necessário.

Mariana Colombo

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Tudo que eu queria dizer pra minha psicóloga, mas a sessão é só semana que vem! Sim, é esse o mote do que vou escrever nesse espaço! Textos, memórias, desabafos