20

caríssima,

há tempos que não te escrevo uma das minhas cartas sentimentais. hoje, talvez pela paixão de viver que o verão me desperta, talvez pelo Brahms que escutei, talvez pelas conversas ricas em cafeína que tivemos a tarde, me senti inspirada a te escrever novamente.

poderia falar de como me aquece o peito ver como nosso relacionamento evoluiu e como o nosso encontro foi pra mim uma dádiva dessa vida. mas preciso te confessar tantas coisas que não sei bem por onde começar.

minha primeira confissão é que, apesar de ter me identificado contigo à primeira vista, no começo de nossa relação tu me intimidavas demais. eu sentia que não tinha pra onde fugir, onde me esconder: teu olhar de pisciana atravessava todas as minhas máscaras. talvez justamente pela identificação absurda, tu conseguias ler tudo o que eu tentava esconder das pessoas, principalmente de ti. eu te admirava demais e não queria meus demônios expostos na tua frente. era um misto de vontade de aproximação pela fascinação e pelo afeto, mas vontade de distanciamento pela vergonha de não ser a mulher forte, guerreira, sensível e independente que tu és.

costumo brincar com as minhas amigas que não gostei de nenhuma delas à primeira vista e que esse era o sinal de que iríamos ser muito amigas. me parece que a desconfiança, a criação de uma barreira, é uma constante quando reconheço uma alma familiar no meio das pessoas. e contigo não foi diferente. na verdade, contigo isso foi ainda mais intenso: não sabia se poderia confiar em alguém que me entendia tão bem, que me fazia sentir tão exposta, tão nua, porque isso poderia ser uma arma contra mim. demorei pra conseguir me entregar e pegar na tua mão, estendida há muito tempo.

eis que me aconteceu o inesperado. tu me fizeste sentir segura e acolhida, e o medo foi embora. e daí consegui me expor por vontade própria. consegui dividir meus medos, sonhos, ideais, paixões e angústias contigo. e no meio desse processo me dei conta disso que te trago como minha segunda confissão: tu me fizeste perceber a mulher forte, guerreira, sensível e independente que eu sou.

percebi então que no princípio te via como alguém muito acima de mim, apesar de meu coração ter sempre me dito que na verdade nós éramos iguais, como colegas, amigas, irmãs. eu me reconheço em ti, e sei que é recíproco. e hoje te vejo assim como minha intuição me diz: como uma semelhante, um ser humano incrível que me inspira diariamente que está lado a lado comigo. acabaram-se as hierarquias, o medo, a ameaça, e ficou o respeito, a admiração e o carinho.

por isso, quero que tu saibas que tens minha profunda e infinita gratidão e que eu gostaria de ser uma pessoa com a qual tu sempre podes contar pra todos os momentos. pras alegrias e pras tristezas, sempre. porque hoje já tens um lugar do lado esquerdo do meu peito, debaixo de sete chaves.

obrigada por iluminar meus dias com a tua humanidade, força e sensibilidade.

de tua amiga,

Iara