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Eu sempre fui avessa a essa ideia de que as coisas são pra sempre.

Quando era mais nova, nunca sonhei em me casar, em me fixar numa cidade, em ter uma casa permanente, nem em investir em qualquer coisa a longo prazo, afinal de contas, tudo vai mudar né?

Não sei bem exatamente de onde que essa visão de mundo e maneira de sentir as coisas veio. Talvez de ver as pessoas ao meu redor sofrendo pelo término de tudo, sofrendo por ver suas expectativas, planos e sonhos caindo por terra porque alguma coisa mudou, como é natural que aconteça. Eu sempre achei muito cruel você se agarrar nessa ideia de que as coisas vão durar, porque a verdade é que elas não vão. Tudo, simplesmente TUDO, passa.

Por isso, do alto da minha mutabilidade geminiana, decidi conduzir minha vida assim: vamo viver esse momento sabendo que ele vai acabar! Vamos aproveitar essa fase, esse relacionamento, essas amizades, essa cidade, esse salário, porque tudo isso vai ter fim. E admito, essa maneira de viver as coisas me poupou de muito sofrimento, de muita ilusão e expectativas.

Entretanto, alguma coisa mudou. Não sei se foi a proximidade com os 25 anos, essa idade tão emblemática pra mim, ou se foram algumas experiências com pessoas mais velhas que tem coisas construídas a longo prazo. Como um insight que veio surgindo lentamente do fundo do inconsciente, comecei a me dar conta de que se eu nunca pensar em pintar um quadro de dois metros de altura, eu nunca vou sair dos meus rascunhos de canto de caderno. E sim, é bom fazer os rascunhos, e sim, eles são práticos e confortáveis, e sim, eu continuo desenhando; mas será que eu me contento com rascunhos?

Eu me dei conta de que pra construir coisas maiores e significativas, a gente precisa pensar grande e pensar longe, e pra isso acontecer tem que acreditar, em algum lugar lá no fundo, que as elas vão durar.

Então, decidi mudar tudo. Me jogar de cabeça nas coisas, construir no dia a dia, em passinhos de bebê, o que eu quero pro meu futuro em todas as áreas da minha vida. Mergulhei de forma profunda nessa ideia da constância, da permanência, e comecei a vivenciar uma nova parte de mim.

Eis que, de repente, como um balde de água gelada no meio do meu caminhar, algo acontece pra me dar um choque de realidade. Tenho o vislumbre de um fim, que vem pra me fazer lembrar da antiga Mari que dizia que tudo poderia acabar — não só pode, como vai. Isso me paralisa, me assusta, me desespera. Mas e os meus planos? E os meus sonhos? Qual o sentido de querer construir coisas que vão acabar? De repente, me vejo no lugar das pessoas que sempre achei serem bobas por acharem que as coisas duram pra sempre.

Me achei num impasse: se me agarro na efemeridade, não construo; se me agarro na eternidade, me frustro. O que fazer?

De um jeito curioso, a resposta veio enquanto caminhava pra casa ouvindo música — como toda boa resposta pra questionamentos filosóficos. Me dei conta de que nenhuma planta deixa de nascer, se nutrir, crescer e se reproduzir só porque vai morrer. Que nada na Natureza deixa de se esforçar pra chegar no máximo do que pode ser apenas porque vai ter fim. Eu percebi que o problema não era pensar que ia acabar ou durar pra sempre, e sim, em não reconhecer que tudo é cíclico. E que muito além da permanência das coisas, o que importa mesmo é o aprendizado de cada ciclo.

Sim, eu posso investir todo meu tempo, energia e dinheiro na produção desse quadro de dois metros. Posso fazer cursos, passar horas treinando, comprar material, me envolver emocionalmente nisso tudo, e no fim, o quadro ficar bem diferente do que eu queria. Ou ficar bom, mas alguém vir e riscar ele todo. Ou cair num acidente e se rasgar todo. Ou até mesmo ficar ótimo e eu conseguir preservar ele durante gerações da minha família, mas eu simplesmente não gostar mais dele. É isso mesmo o que importa? Todo meu esforço vai pro lixo? Eu me dei conta de que, independente do resultado do quadro, ele foi um processo de aprendizado importante, pois a pessoa que o finalizou já não era mais a pessoa que o idealizou. O quadro é um ciclo, assim como todas as outras coisas que virão.

Além disso, me dei conta também de que vivenciar profundamente o desejo pela eternidade e a aceitação da efemeridade também é cíclico; os dois sentimentos são importantes pra permitir que as coisas aconteçam como tem que acontecer — de forma verdadeira, sem superficialidade, mas também sem ilusões. E que no caminho disso tudo, só uma coisa é eterna: os ciclos de renovação do autoconhecimento de nós mesmos, que somos efêmeros.