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Como uma profecia revelada num sonho, eu vi o fim de nós dois. Pressenti, anos antes, que aquele laço tão forte quanto aço se desfaria pedaço por pedaço. O que faria eu, então?

Primeiro, me revoltei. Não pedi nenhum dom sensitivo, repulsivo e inconveniente. Não queria ver nada daquilo mas, insistente, a imagem das tuas costas se tatuava na minha mente.

Depois, desesperei. O futuro descrente me causou uma dor tão resistente que por uma semana fiquei de cama dentro de mim. Não queria aceitar o inevitável fim. Seria mesmo nossa sina testemunhar a ruína de tudo o que plantamos, cultivamos, colhemos? Seríamos eu e você reféns do furioso furacão que arrancaria nossas raízes?

Chorei por dias. Solucei por noites. Imaginar o que me causarias era mais do que eu podia suportar. Com receio de te perder, não conseguia mais me encontrar.

Por fim, o cansaço me venceu. Já não tinha forças para lutar contra o medo que, em segredo, era meu mais antigo rival. Baixei a guarda, abri a porta e fiz dele meu convidado especial.

Imprevisível, ele abriu os compridos braços e me envolveu num contato ardente. E, surpreendente, me presenteou com o incognoscível: sua presença em mim o tornou invisível. Por alguma razão, o desespero, a revolta e o caos deram lugar à aceitação. Abraçando o medo, desarmei a escuridão.

Hoje, te olhando nos olhos, vejo um momento passageiro e perene, do jeito que a vida quis. E como uma profecia revelada num sonho, em nós dois vejo uma efêmera eternidade, plena e feliz.

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