40

Cheguei na escola de artes marciais em cima da hora. Praticamente caí da cama, tanto era o sono e o cansaço acumulado do dia anterior. A instrutora deu a primeira ordem e começamos a corrida. Ali, arrastando meu corpo, percebi que ainda não havia acordado.

Ela deu uma segunda ordem e podíamos montar os arcos. Tomada por uma repentina amnésia, vi a corda e o arco como objetos estranhos com os quais eu não tinha ideia do que fazer. Não pensei que faltar duas semanas teria um efeito tão desastroso em minha memória, mas consegui relembrar observando rapidamente uma colega. Que belo jeito de começar.

Pegamos as flechas e nos posicionamos na linha de tiro. A presença de outros colegas me foi estranha, tão acostumada que estava com as aulas sozinha. Não tinha ideia que me incomodaria tanto até ver minha primeira flecha simplesmente cair de minha mão enquanto preparava o tiro. Estava nervosa.

Tentei de novo e de novo, e a cada nova tentativa esquecia de algo ou errava a mira. Não sei se era o sono, ou a ausência por muitos dias, ou a vergonha de atirar na frente de colegas mais graduados, mas alguma coisa não me deixava fazer aquilo com tranquilidade. Me sentia péssima naquele tatame.

“Você está com medo de atirar”, me disse a instrutora, me fazendo lembrar de quantas vezes já tinha ouvido isso sobre minhas performances como pianista. Ela sabia que eu sabia fazer, mas estava com medo. Todos os fatores externos e fora do meu controle viravam barreira pro que eu fazia bem, assim como acontecia no palco.

“O arco é uma extensão do seu corpo. Se você tá com medo dele, é como se você tivesse com medo do seu braço”, tentou ilustrar. É claro que eu pensei o quão absurdo seria sentir medo de uma parte de si mesma. Mas, feito um reflexo imediato do inconsciente, comecei a pensar se seria assim tão estranho sentir medo de uma parte sua que você não conhece direito. Uma parte sua que te obriga a lidar com coisas que você não gosta ou que você acha difíceis. Uma extensão de você que explora tudo de bonito e de feio que tem ali, e que te expõe por inteiro, como era também o piano. Acho que se um braço meu fosse assim, talvez tivesse medo dele sim.

“Você tá pensando demais. Calma. Respira e toma teu tempo” aconselhou, quando eu já tava pra desistir. E, cada vez mais frustrada com meu desempenho, obedeci. Pensei o quanto eu gostava de arqueria, assim como amava tocar piano. Não precisava ser tão sofrido. Respirei e tentei parar de controlar tudo, de pensar nos colegas, de virar refém dos detalhes, de me fixar nos erros. Lembrei de um professor de teatro que dizia que pra improvisar eu não devia querer ser interessante, e sim, querer me interessar.

Liberei a pressão e tomei meu tempo. Me concentrei em onde queria acertar. Me interessei pela minha respiração e por como sentia meu corpo. Preparei, inspirei, levantei o arco, expirei e, feliz, vi minha flecha atravessando o alvo em cheio.