O AMOR TOMOU MEU AMOR-PRÓPRIO.

Logo da primeira vez que o vi, ele tomou o meu ar. Depois, passou a tomar meus dias. Não demorou muito para tomar as noites de sono. Tomou semanas. Meses. Até que um dia ele tomou um beijo meu. E passou a tomar um espaço na minha vida.

Ele esperou. Mas teve um dia que ele tomou minha virgindade. Aos poucos, foi me tomando por inteiro. Ele tomou minhas unhas vermelhas. Minhas minissaias. Meus vestidos. Decotes. Mesmo depois que minha mãe costurou, um por um, ele os tomou. Ele tomou meus saltos altos. E os baixos também. Meu corte de cabelo. Minhas tatuagens. Quando eu tentei recusar, ele tomou minha coragem.

Ele tomou minhas senhas. Minhas selfies. Meus likes. Minhas fotos nas redes sociais. Meus amigos nas redes sociais. Minhas redes sociais. Depois, tomou minha vida social. Ele tomou meus amigos. E até as amigas. Ele tomou meu jeito de falar. As gírias. Os palavrões. Ele tomou meu gosto musical. Minha opinião. Tentei fugir, mas ele tomou minha liberdade.

Um dia, ele tomou minha oportunidade de emprego. E passou a tomar mais trabalhos de mim do que empresas em tempos de crise. Ele tomou minhas escolhas. Minhas decisões. Ele tomou meus passos. Minhas palavras. Meus nãos. Minha vontade de viver. Ele tomou meu eu.

Ele me esvaziou até o finalzinho, até não restar uma única gotinha de mim. Foi então que ele passou a me preencher. Onde havia eu, ele encheu de ele. Me despi de mim. E me vesti dele. Literalmente: passei a vestir suas roupas. Os tênis da marca que ele gosta. O gosto musical dele. Vesti a opinião dele. Troquei minhas fotos pelas dele. Meus amigos pelos dele. Minha família pela dele. Até minhas senhas eram as dele.

E quando não havia mais nada a ser tomado, nada a ser preenchido, eu era ele. Quando me senti em sua pele, revirei sua mente e percebi que faltava algo: ele não tinha amor-próprio. Aproveitei que estava ali e tomei o meu de volta. Saí correndo sem olhar para trás. E o deixei perdido entre todos os amores-próprios que já tomou esperando encontrar o seu.