Mulheridade na vida privada (1)

A mulher que ocupa espaço agride. Primeiro, pela forma do corpo. Hoje, ponhei meus pés dentro de casa, olhei pra mulher junto comigo, minha mãe, uma mulher magrinha. Ela não ocupa espaço. Mesmo a loucura dela, é uma loucura bonita, loucura de mulher magra, proporcional. Não esparramada como a loucura da gorda, que transborda a forma. Olhando de canto, ela vigia a menina esparramada no sofá. O espaço atômico que o corpo da menina ocupa, o afundado no sofá que a bunda dela cava, o excesso sobressaído das coxas dela esparramado no acolchoado dá asco, ofende. A menina não era mais bonita. Sobrevem toda lembrança dos tempos em que mãe reduziu a menina ao corpo dela que, naquela época, era ainda maior. Nesses dias, a menina se retraiu, se escondeu: quando entrava em uma sala com pessoas, sentia que todas eram esmagadas contra a parede, por conta do seu tamanho. Nesses dias, a menina apertava as coxas com as mãos, analisando o quanto ela ainda precisava tirar daquilo para ser bonita que nem a mãe. E a menina amargou. Um dia, a menina notou um homem olhando para ela. Olhava para ela mexendo a perna, passando a mão pela cabeça, nervoso, desviava o olhar, arfava o peito, lambia o beiço. Veio um calor. E ela começou a sentir raiva da mãe, que tinha mentido para ela, que definiu o que era ouro, como também já de início tirou ele da mão dela. E a menina urrou quando viu que o ouro estava na mão dela, repousava no meio das pernas dela, caia pulverizado do cabelo. E a menina descobriu o sexo, primeiro comido sobre a roupa, depois doído. Até hoje sexo dói nela. E hoje ela sente muita mágoa e raiva, por que ela sente tanto amor apertando o interior dela, mas ela só consegue transpirar sexo, ela não sente que reconhecem nela algo além do sexo. Na vida privada, mais especificamente, a mais privada de todas (amor?) sexo é a moeda dela. [E sabido que sexo [e moeda de puta. O mais estranho, por mais incrível que pareça, a mãe parece sentir mais orgulho da filha parcialmente dadeira que da filha infértil, não desejada. A fé nunca mais voltou, por que ela não acha a filha dela bonita (nem por dentro, mar dái já é outra estória). Mas da porta para fora a filha é bonita, hoje não mais só por causa do sexo (também por causa do sexo). A menina sente que a alma dela é gentil com as outras. A menina se reconhece e é reconhecida como de verdade. A verdade dela já encantou uns espíritos por aí, que prometeram seguir ela até a beirada do mundo, mesmo sem saber o caminho. A Naná hoje consegue falar (mesmo que só algumas coisas) com franqueza, e isso é bonito: a Naná não pode não ser a mais magra, a mais inteligente, a mais engraçada, mas a verdade no ato dela torna tudo mais bonito. Só que ela guarda uma mágoa, de que a verdade dela não é geracional, não deve à mãe (deve em parte ao sexo, mas diga-se de passagem, a virgindade ela perdeu com ela mesma), mas deve mais a ela, indivídua sozinha perdida entre batidas e risadas. Hoje, ela não quer mais que a mãe veja ela feliz, não quer que ela sinta o docinho da agua dos frutos correndo bochecha abaixo. Ela sabe que a mãe tem o coração bom, mas a voz violenta ainda ressoa no olhar vigilante dela. E ela não consegue esquecer. Não mais confia na outra mulher, sabe que tudo é uma questão de tempo até a próxima. Não me entendam mal, a menina ama a mãe, a mãe põe comida na mesa, a mãe veste a menina, a mãe conta história, segura a menina quando ela chora, gritou quando viu que ela andava no fio da navalha precipício A menina leu sobre o poder diluído que põe mulheres contra mulheres, mas não consegue controlar o lábio torcido quando a amargura invade a boca ao ver a mãe bonita.

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