Definitivamente não consigo gostar de café requentado ou frio.
Fui buscar meus óulos. Aquele que esqueci quando saí apressada do seu quarto naquela manhã depois da noite que dormimos juntos. Aliás, última noite.

Ainda tínhamos sintonia, ainda tínhamos intimidade, ainda dava para sentir nosso desejo. Não só meramente sexual, mas de ficar juntos, realmente despidos, não estou falando apenas de nudez literal. Dava para sentir aquela energia de atração, era impossível não permanecer abraçados e repouzar nossas cabeças no corpo do outro e por fim acabar dormindo, quase sem querer, de conchinha. Ao menos era assim que eu me sentia.
Anteontem foi tudo tão estranho, tão distante. Você não parecia exatamente um desconhecido, era pior que isso. Parecia alguém que eu conhecia, porém era apenas um conhecido, nada além de alguém que eu cumprimentaria se visse na rua ou caso cruzasse em algum outro lugar perguntaria como as coisas estão e como seu pai está e com certeza a conversa morreria mais ou menos aí depois de um silêncio incômodo.
Me senti extremamente desconfortável, não parecia ser você, alguém que até bem pouco tempo atrás me fazia esquecer de tudo ao redor e me protegia dentro dos seus braços. Que saudade desse abraço. Não parecia alguém que “sou” íntima, na verdade longe disso. Sabe quando você não conhece alguém direito e fica se policiando o tempo todo? O desconforto te sufoca e te cala. Então, era exatamente eu naquela tarde.
Você disse que estava de folga e sem fazer nada, perguntei se podia pegar meus óculos e você respondeu de forma carinhosa que eu podia.
Você abriu a porta já com o óculos na mão, me entregou, foi andando para abrir a janela e sentou no sofá. Você nunca me recebeu na sala. Sim, eu escutei perfeitamente o que você quis dizer com essa linguagem não verbal, quanto a isso não precisa se preocupar, a comunicação foi feita, eu entendi: “Tá, pegou o óculos, agora se quiser ir embora foda-se, mas vou fazer sala pra você por consideração para ser gentil”.
Conversamos uns 30 minutos sobre coisas aleatórias no sofá da sala olhando pela janela e também para as muitas coisas que seu pai guarda na sala, até você praticamente me expulsar perguntando que horas eram e dizer que me acompanharia até o elevador.
Eu preferi voltar de ônibus. A viagem é mais longa e me dá alguns minutos de caminhada. Eu precisava andar um pouco e observar as paisagens pela janela do ônibus enquanto reouvia “Canções de apartamento”, um dos álbuns que sou apaixonada, que te apresentei e você passou a compartilhar esse vício comigo.
Não consegui mais ser a mesma com você. Você percebeu, óbvio. Eu sempre fui tão quente, dei assunto para tudo, ri e enviei coisas que achava interessantes e engraçadas, fui atensiosa e empolgada. Você fez uma piadinha dizendo que eu estava fria e perguntando se eu estava chateada. Eu disse que não.
Não menti ao dizer que não estou chateada. Realmente não estou. Aquela distância toda não me deixou dessa forma, só me fez pensar sobre algumas coisas que tenho gastado tanta energia me martirizando e implorando ao universo.
Quando saí do seu apartamento não queria chorar, não estava triste nem feliz. Só precisava digerir as coisas, assimilar e aceitar o que já estava mais que claro.
É estranho que faz apenas 48h e me lembro como se fosse algo tão distante. Quase como a cena de um filme que mexeu comigo. Como se eu tivesse assistido de fora e fosse alheia a tudo. Se realmente aconteceu comigo fazem anos. É tão singular.
Você ontem me mandou um áudio muito desnecessário, eu dei uma resposta malcriada e dei “boa noite”. Você não respondeu. Hoje não me mandou “bom dia”. Acho melhor assim, honestamente é muito mais fácil não falar com alguém quando essa pessoa não fala contigo.

Uma caneca grande com café recém passado. Até a metade está quentinho, depois eu começo a beber mais rapidamente, quase em desespero, pois o café está trocando calor com o ambiente. Porém chega um momento que o café esfria, eu não quero aquele um ou dois dedos de café e jogo na pia. Não consigo gostar de café requentado ou frio.
