1 motivo para não assistir 13 Reasons Why

Este texto é para todos que se sentem sozinhos e que, em algum momento da vida, já sentiram que não podiam continuar. Apenas não podiam continuar.

Caso você já tenha assistido à série, me desculpe.

Eu não cheguei a tempo até você.

E, por favor, fique comigo. Você sabe o quanto é importante que nos fixemos à mísera sensação de compreensão que alguém pode nos transmitir.

Você está me transmitindo isso agora (sim).

E, talvez, eu possa transmitir um pouco a você.

De acordo com o instituto nenhum de pesquisa, 8 a cada 10 pessoas na sua timeline falaram, estão falando, ou devem falar sobre a nova série do Netflix, 13 Reasons Why.

Eu não vou falar sobre nenhum mérito técnico desse seriado. Não vou falar de trilha sonora. Não vou falar da qualidade dos atores. Não vou falar de roteiro. Não vou falar sobre a verossimilhança dos elementos ou da semiose intermídia da transcrição entre diferentes meios na adaptação do livro para a série.

Seria muito simples fazer isso.

Eu vou apenas falar sobre o motivo pelo qual eu acho que você não precisa assistir a essa série.


Motivo número 1

Essa série foi feita com a melhor das intenções para contar uma história. Muitas pessoas ficaram impressionadas com o que viram e se sensibilizaram porque nunca passaram por aquilo.

Nós não.

Nós estávamos do outro lado da história. Nós temos os nossos segredos que ninguém sabe. Nós queremos ser compreendidos. Nós precisamos de apoio e ajuda.

Mas tem uma coisa que nós não precisamos: assistir algo que o tempo todo nos faça reviver o que aconteceu com a gente. Não precisamos sofrer, mais uma vez, por ver a protagonista passando por algo que nós sabemos exatamente como é. Nós não precisamos sentir tudo de novo.

Sabe aquela dor que você sentiu no peito ao pensar em desistir?

Aquela dor lacerante de quando você expira todo o ar que existe dentro do seu corpo até perder todo o oxigênio e não conseguir fôlego sequer para chorar?

Sabe quando você sente que mil coisas estão passando pela sua cabeça, mas não consegue pensar em nenhuma delas?

Foi isso que eu senti.

Eu senti cada palavra de dor que Hannah gravou naquela fita. Eu senti cada golpe que ela levou na boca do meu estômago. Eu sei o que ela sentiu quando deitou naquela banheira e se cortou. E eu senti junto. Senti muito forte.

“Mas, Mari, isso se chama empatia, não é? Você se identificou com a personagem e se apegou à série! Isso quer dizer que é um entretenimento eficiente e significa que você estava curtindo, né não?”

Não. Não significa nada disso.

Eu assisti a tudo aquilo sem respirar, torcendo para que alguma cena me trouxesse um pouco de oxigênio. Eu continuei assistindo porque implorava, a cada segundo, que alguém fizesse alguma coisa. Qualquer coisa. Eu continuei assistindo assim como eu continuei vivendo, esperando que alguém fizesse algo que mudasse tudo aquilo. Ou que algo acontecesse de bom, algo, qualquer coisa, que relativizasse (ao menos um pouco) o último ato de Hannah. Mas isso não aconteceu.

Essa série me despertou coisas que eu não lembrava que ainda existiam dentro de mim.

Eu acompanhei o raciocínio de Hannah e tudo que ela fez me pareceu tão lógico, tão racional, tão justificável, que eu quase ouvi a série falando para mim: “não, não há outra saída”.

Ei.

Calma.

Respira.

Eu não tô dizendo que não há outra saída.

HÁ OUTRA SAÍDA.


A vida pode ser bem merda às vezes. Só você sabe sobre a sua vida. Só você sabe a intensidade de merda que é a sua vida. Você não tem a obrigação de encará-la diferentemente de como ela é de verdade. E só você sabe como a sua vida é de verdade.

O ponto é que todos temos duas partes dentro de nós: uma parte que quer abandonar tudo e outra parte que quer, desesperadamente, continuar vivendo.

Normalmente, a primeira parte permanece escondida e, em algumas pessoas, ela nunca chega a se manifestar. Em outras pessoas, ela está sempre ali, ocupando um espaço pequeno da sua existência, em momentos esporádicos em sua rotina. Em outras pessoas ainda, as duas partes estão em conflito constante. E é sobre essas pessoas que estamos falando. É sobre mim. É sobre Hannah. É sobre você.

E a verdade é que alguns de nós podem não estar preparados o suficiente e seguros o suficiente para viver e sentir e sentir doer todas aquelas merdas que já te fizeram sofrer tanto.

Alguns de nós não precisam disso agora. Precisam de outra coisa.

E tá tudo bem! Não quer dizer que você seja fraco ou que você tenha medo de fazer alguma coisa caso assista à série. O fato de você não precisar assisti-la, agora, não quer dizer absolutamente nada.

A única coisa importante a ser dito aqui é que ninguém é obrigado a sofrer.

Você não é. Eu não sou. E, ok, Hannah também não era, mas você não precisa se envolver na história dela agora. Acredite em mim.

Essa história fala de abandono, fala de estupro, fala de isolamento, fala de incompreensão, fala de não se encaixar, fala de não contar seus segredos porque você acha que eles são muito imundos, fala de não confiar em ninguém.

Fala de coisas que todos nós já passamos.

Mas fala de uma forma tão intensa e tão pessoal que ao invés de ser espectador, você se torna cúmplice. E, como eu disse, alguns de nós não estão preparados, emocionalmente, para assumir esse papel nesse momento.


Bom, na verdade, eu só acho que não é algo que valha a pena ver. Eu não quero ver isso de novo.

Você pode fazer o que você quiser.

Assista. Não assista. Talvez você já tenha assistido. Talvez tenha gostado.

Mas eu sinto que, por algum motivo, você sabe exatamente do que eu estou falando. E se eu estou aqui, falando, significa que você não está sozinho.

Mesmo que tenha apenas um motivo para acreditar nisso.

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