O que eu aprendi morando 1 ano em BH
Acabou de fazer um ano que eu me mudei para BH.

Eu nunca tinha saído “de verdade” da casa dos meus pais, até então. Completei minha faculdade na cidade onde nasci, comecei a trabalhar na cidade onde nasci e nunca, enquanto não vim para BH, comecei a pagar pela comida que comi, pelo teto em que morei e pelas brusinha que vesti.
Minha mudança para Belo Horizonte foi caótica, como praticamente todos os meus personagens de RPG. Em uma sexta-feira recebi a ligação do Dudu me chamando pra trabalhar na Perestroika e na segunda-feira (tipo, 3 dias depois) eu já estava começando meu primeiro dia de trabalho, dormindo de favorzinho na casa da Bianca por alguns dias até conseguir um quarto pra eu viver.
Eu não tive carreto de mudança, eu não trouxe móveis, apetrechos, livros ou coisas de grande volume. Minha mãe veio comigo para me ajudar a trazer o que era possível: duas mochilas pequenas e uma bolsa de mão. E foi isso. Tudo que eu trouxe e tudo que eu tinha.
Com o tempo, eu até fui comprando uma coisinha ou outra, mas, basicamente, eu diminuí todos os meus pertences a duas mochilas pequenas e uma bolsa de mão. E tem um detalhe muito importante sobre mim: eu sou uma acumuladora de coisas. E esta foi a primeira coisa que aprendi quando me mudei para BH:
eu preciso de menos coisas para viver do que eu imaginava, e me cercar de objetos relacionados à minha personalidade não muda em nada o personagem que eu realmente sou.
A segunda coisa que aprendi em BH na verdade não foi uma coisa. Foi um lugar. Eu aprendi um lugar inteiro. E eu serei eternamente, imensamente e genuinamente grata à Perestroika por ter mudado completamente a minha vida. Quando eu aceitei a parada de mudar completamente a minha área de atuação para me aventurar pelos caminhos de um Diretor de Whatever, eu jamais imaginava o que estava por vir. Nem em meus sonhos mais delirantes, nem em meus planos mais concretos.
Aliás, na Perestroika, os seus sonhos é que são concretos e os planos é que são delirantes.
Foi um turbilhão de emoções. Eu senti todas elas. Medo, empolgação, alegria, frustração, afeto genuíno por pessoas incríveis, agonia, delírio e, no fim da minha jornada,
aprendi que o conhecimento tem muito mais a ver com o que a gente fez com a nossa alma do que com o que a gente guarda no nosso cérebro.
Depois de trabalhar na Perestroika fui trabalhar na Rock Content, outra empresa incrível, onde aprendi a não limitar a minha capacidade ao que me foi imposto por qualquer preconceito sobre de onde eu vim, quem eu sou, como eu me visto ou como eu me comporto. Lá conheci um dos grupos de pessoas mais sensacionais com quem já tive o prazer de me relacionar.
também nessa época eu entendi o valor do esforço, mas também aprendi a reconhecer o limite da minha dor. saúde importa. muito.
Nesse momento, eu passei por uma situação muito delicada. Quis voltar. Quis desistir. Quis minha família de volta mais perto de mim. Eu nunca tinha ido a um hospital sozinha e eu te digo, é difícil lembrar que você precisa preencher uma maldita ficha quando você não tem ninguém para segurar a sua cabeça ao vomitar no chão frio de um lugar completamente desconhecido. E me senti sozinha, pela primeira vez, desde então.
ficar doente sozinha é uma merda. e ficar doente por estar sozinha é uma merda pior ainda.
É que é assim: eu sempre gostei muito de ficar sozinha. Detesto bater papo no telefone, a companhia das pessoas me cansa depois de um tempo, barulho alto me enjoa o ouvido e dormir com outras pessoas no mesmo ambiente é uma verdadeira tortura. Isso não mudou, eu sempre gostei de ficar sozinha.
Mas gostar de ficar sozinha é completamente diferente de se sentir esganada pela solidão.
Acho que foi aqui que eu senti solidão pela primeira vez na minha vida. Eu estava trabalhando, durante a maior parte do tempo, em casa, e eu cheguei a ficar dias sem abrir a boca para falar com ninguém. Eu desenvolvi transtorno de ansiedade e um princípio de depressão que tornava difícil me levantar para tomar um copo de água. Cada banho era uma vitória diária. Cada refeição era um esforço digno de uma medalha de ouro.
Durante um certo período de tempo, eu chorei muito. Chorei todas as noites e o pensamento de voltar para a casa da minha mãe me martelava todos os dias na cabeça.
Mas eu não voltei. Meus pais me incentivaram o tempo todo a ficar e fazer meus corres, mas me acalentando com a informação contínua de que eu teria para onde voltar, caso eu realmente quisesse voltar.
voltar nunca foi o plano, mas saber que eu tinha pra onde voltar fez uma puta diferença
E então eu fiquei, porque voltar nunca foi o plano.
O plano mesmo, de verdade, sempre foi acumular uns xp pra ver se dava pra subir de nível algum dia.
E you know what? Acho que tô até chegando no fim de uma masmorra.
Vou ali me preparar pra esse boss e já volto.