Você se define pela sua profissão?

Tudo começou * há aproximadamente 3 anos, quando eu participei de uma conversa que mudou minha vida e me fez pensar muito a respeito de quem eu sou:

_ Oi, fulana! Me passa seu e-mail! 
_ Tá bem, anota aí: fulanajornalista@gmail.com

_ Fulana, te enviei o e-mail, vê aí se chegou.
_ Não, não chegou…
_ Vê se tá no SPAM.
_ Também não tá…
_ Estranho! Me passa um outro e-mail seu para eu fazer um teste aqui!
_ Esse é meu único e-mail.

Isso me abalou de uma forma que vocês não fazem ideia.

Pode ser que seja apenas um e-mail e que isso não signifique nada, mas vamos lá, acompanhem o meu raciocínio:

Longe de mim ditar qual endereço de e-mail é mais adequado e não vejo nenhum problema se você decidiu manter, por saudosismo aos incríveis anos 90, o seu htinha1781323912@zipmail.com.br, mas a questão aqui não é muito bem essa.

~

— Pequena pausa para dizer que poupei o seu trabalho e já fiz a pesquisa. Descobri que sim, o zipmail ainda existe.

— * Segunda pausa para dizer que sinto uma aflição muito grande em escrever “tudo começou” e não poder completar com “há um tempo atrás, na ilha do sol”.

~

Bom, voltando:

A questão aqui não é problematizar os endereços de e-mail das pessoas, mas aquele e-mail me fez ter um pensamento imediato, um pouco simplório, mas bem sincero:

Nossa, mas seu ÚNICO e-mail NA VIDA é fulanajornalista? Isso quer dizer que, em um nível mais abstrato, ninguém pode mandar um e-mail para a fulana, sem ser para a jornalista? Não existe uma fulana que não seja jornalista? A fulana é, inteiramente e integralmente, definida pela sua profissão: jornalista?

Veja bem, eu não estou reduzindo ninguém à sua profissão. Muito pelo contrário. Eu fiquei legitimamente preocupada com fulana porque o e-mail dela me passou essa sensação. Afinal, certas coisas na vida podem funcionar como um reflexo daquilo que você quer mostrar ao mundo sobre você: o seu e-mail, o seu cartão de visitas, o seu perfil no Facebook, a camiseta que você usa. Sei lá.

Talvez vocês estejam me acusando de usar quase de metonímia ao pegar a parte para explicar um todo, mas, eu acho que isso diz muito sim, sobre alguém.

Eu não quero ser a mariellejornalista, ou a marielleredatora, ou a marielleanalistademídiassociaiseoescambau.

Eu só quero ser a Mari.

Eu sou mais do que aquilo que eu faço oito horas do meu dia.

Veja bem: eu amo a minha profissão e me sinto realmente uma pessoa de sorte por trabalhar com algo que me traz alegria, realização e uma sensação de pertencimento muito forte a algo do qual quero fazer parte, diariamente. Mas existe uma diferença muito grande entre querer fazer parte de algo e me tornar integralmente e unicamente aquilo. É muito diferente.

Assim como, uma vez, tentaram me convencer de que eu deveria parar de postar tanta bobagem e transformar meus perfis sociais na internet em portais de conhecimento na minha área de especialidade para me tornar uma autoridade no assunto e ganhar relevância no mercado.

Eu não concordo.

Eu não sou uma analista de mídias sociais. Eu sou a Mari. Sou de Divinópolis. Filha da Ângela e do Earle. Irmã do Rafael. Sou também canhota. Aquariana. Feminista. Sofro de rinite alérgica. Tenho inconstância com meu cabelo. Gosto de arquearia. Acho que foi golpe. Vou ao cinema sozinha com frequência. Jogo RPG. Tenho crôche no Benedict Cumberbatch e acho que um dia ainda iremos nos casar e ter muitos cachorros. Adoro pintar com aquarela mas não faço com a frequência que eu gostaria.

Enfim, eu poderia enumerar um milhão de características minhas que acredito que sejam tão importantes quanto a profissão que exerço atualmente. Veja bem, eu disse: atualmente.

Eu já transitei entre três cursos superiores diferentes e trabalhei em muitas coisas distintas. Por sinal, acredito que ter tido experiências diferentes me enriqueceu bastante e eu não quero ignorar tudo isso para me definir apenas como aquilo no qual dedico meus esforços profissionais no momento.

Nada me impede de, daqui algum tempo, decidir que quero me dedicar a desenvolver projetos arquitetônicos envolvendo impressoras 3d. E aí? Como fica o meu único e-mail mariellejornalista se eu tomar essa decisão?

Talvez eu leve isso muito a sério, porque o meu e-mail sempre foi o meu nome. Mesmo nos meus tempos áureos de ICQ (257509524, bjs) e Orkut (exceto no universo fake~~quem nunca?).

Meu e-mail sempre foi mariellezumbach@hotmail.com, que, recentemente, migrei para gmail porque né, inevitável. Mas continuo rececbendo também no antigo e redirecionando. Veja bem, ele existe e funciona desde a época do cadastro no MSN Messenger.

Mas eu continuo sendo a Marielle.

Foi só todo o resto que mudou.

E essa eu continuarei sendo.

Mesmo que todo o resto mude.

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