Relato sobre Visita (de uma branca) a um Quilombo Urbano

No dia 09 de Abril de 2017, num domingo de tarde agradável, eu e mais duas colegas da faculdade decidimos que iríamos visitar o Quilombo Urbano* já que haveria um evento comemorativo de aniversário do local e a proposta de unir arte (exibição de bordados) com gastronomia (moqueca) e música (samba) feito por e para mulheres nos pareceu divertida e interessante.

Como elas mesmas se definem, o Quilombo Urbano trata-se de um “espaço de arte e cultura preta. De criação e presença preta, de sociabilidade construção, produção e discussão de uma política preta.” E será o relato sobre essa “visita” que eu farei.

Antes do relato, hei de assumir: não está sendo fácil traduzir aquela tarde em palavras. Com o verbo no presente mesmo, por que há muito venho tentando escrever sobre e “fazer o trabalho de psicologia social”. Demorei um certo tempo para entender que, mais do que a dificuldade, também tenho que confessar que estou “cheia de dedos” para fazer esse relato. Estou iniciando a jornada da escrita pensando que tenho que ser muito cuidadosa para falar sobre o que vivi. Digo “vivi” e não “vi”, pois muito do que aconteceu foi muito além da observação. O estar lá tornou-se algo irrelevante. O que pulsava, muito mais do que a minha presença no local, era o incômodo de ser quem eu era, naquele lugar. E isso só ficou claro depois de algum tempo de digestão e atenção àquela “coisa estranha que eu estava sentindo”.

Bom, vamos lá…

Chegamos cedo. O evento havia iniciado às quatorze horas e imaginamos que por volta das dezesseis já haveria algo rolando para que pudéssemos ver. Logo ao tentar estacionar o carro, veio a primeira fisgada de estranhamento: “É aqui mesmo que a gente deveria vir? É nesse lugar?”. Conferimos o endereço e estava tudo certo.

Era lá mesmo.

Duas meninas estavam na porta e fui me aproximando delas e sentindo alguns olhares. “Será que eu estou mal vestida?” Pensei a priori.
- Oi, boa tarde, tudo bem? Aqui é o evento do Quilombo Urbano?
- Oi, é sim.
- Ah, legal, a gente veio conhecer.
- Ok, só entrar. Fica à vontade.
- Obrigada. Venham meninas.

Entramos. Olhares.

“Coisa estranha que estou sentindo. O que está pegando?” — Pensei.
Sentimento de estranheza, de não pertencimento, de invasão.
Uma inquietude quieta, silenciosa, muito incômoda.

- Será que eu deveria estar aqui? Ué… mas por que não? O evento era público, não era? Deixa eu checar aqui no facebook… sim, público… ah, ok, então a gente poderia vir aqui sim…por via das dúvidas, deixa eu ler aqui de novo a diretriz do relatório… uhm, ok… “exercício de aproximação”… AH! Aproximação! Claro! Caramba, esse professor taca a mão na ferida mesmo né? Ele provoca a gente MESMO. Era pra isso que ele queria que a gente viesse aqui. Ainda bem que a gente veio. Ainda bem que eu estou sentindo esse incômodo. Mas que incomodo é esse? Mas por que eu estou sentindo isso e achando que eu não deveria estar aqui? Que eu não pertenço a esse local? Ai, melhor a gente voltar pra trás. Talvez a gente tenha escolhido o evento errado…mas já estamos por aqui… melhor ficar, acho que não tem problema.

Muitos pensamentos em muito pouco tempo.

Depois de um tempo, notei que o que estava “pegando” mesmo era o sentimento: Aquela coisa de segregação. Aquela coisa de comunidade. Aquele senso de pertencimento. Ou a falta dele.

Isso tudo e mais um pouco de outra coisa. Não sei dizer o que.
Tudo, junto e misturado.

Além das duas colegas, meu namorado nos acompanha e ao entrarmos segue direto para conversar com as pessoas que estavam onde servia a moqueca.

Enquanto isso, nós nos acomodamos em algumas poltronas e começamos a zapear com os olhos o local. Coisas “aleatórias” na parede, são figuras bonitas, bandeiras, quadros.

- Peguei cerveja para vocês. Eu vou comer a moqueca, mas ainda não tá pronta. Vai lá conversar com a tia que está na cozinha, Mariana.
- Ah, verdade, vou sim.

Me levanto rápido e sigo em direção às moças que estão preparando a Moqueca.
- Oi gente, tudo bem? Quem é Mara? — pergunto eu, recebendo (e começando a colecionar) mais e mais olhares.
- Mara? NARA* você quer dizer, não é?
- Ahh, sim, Nara, isso. Desculpe, eu li rápido no evento. Então Nara, eu queria bater um papo com você um pouquinho sobre o evento. Meu professor passou um trabalho para a gente fazer e viemos aqui hoje.
- Professor? Que professor? Trabalho do que? Por que?
- Ah, então, somos estudantes de psicologia, e a material dele é psicologia social. A idéia é que a gente venha aqui conversar com vocês, pra conhecer, entender um pouco, participar. Ele nos propôs algo como um exercício de aproximaç…
- Ah, tá bom. Deixa eu terminar de preparar a Moqueca aqui que já estou atrasada depois sento lá para conversar com vocês.
- Sim, claro! Não queremos atrapalhar, obrigada de qualquer forma.

De novo a estranheza. “Um pouco ríspida ela, não?”.

Sentamos de volta na mesa e eu pensando no tamanho da bola fora que tinha sido ter errado o nome dela logo ao abrir a conversa — não comecei bem — pensei.

Seguimos sentadas na mesa por mais uma hora, mais ou menos, colecionando mais e mais olhares, principalmente daqueles que chegavam para o evento e nos viam lá dentro. E aí, veio o primeiro pensamento: Todo mundo aqui é preto. Nós somos brancas. E imediatamente pensei: “Nah, deixa disso Mariana, isso não tem a nada a ver”.

Continuamos bebendo nossa cerveja e conversando.

Inevitavelmente a conversa das branquinhas cai no assunto do desconforto e após alguns rodeios, tocamos no ponto de sermos brancas num espaço preto.

- Não está sendo muito legal, não estou confortável, mas já que estamos aqui, então vamos curtir.

Quando finalmente Nara vem à mesa e senta-se conosco.

- Meninas, desculpe. Vamos conversar.

E começam às perguntas à Nara. Como começou, de onde vem, pra onde vai e o que esperam do Quilombo Urbano. Ela responde tudo pacientemente e com muita boa vontade. No meio da conversa, chega Raquel*, a segunda mulher que, junto com a Nara, é uma das idealizadoras do local. Ela toca no ombro da Nara e pede para falar em particular com ela.

Nara se levanta e conversa com Raquel.

Mais olhares.

Quando retorna, nos dá o recado explícito da Raquel, nos dizendo que não podemos em hipótese nenhuma falar pelo lugar. Nem pelo evento, nem divulgar, nem nada que fosse além de cumprir a finalidade do trabalho acadêmico.

- Não há nada que vocês possam falar ou fazer sobre aqui a não ser o trabalho do professor de vocês.
- Ah, mas por quê?
- Ué, porque vocês são brancas, e não podem falar por nós, mulheres pretas.
- Claro, tudo bem, sem problemas.

Nara continua a conversar conosco por mais alguns minutos e depois se vai.
E nós ficamos ali sentadas no mesmo local. Nos entreolhamos. Começamos a discutir discretamente a atitude “arrogante” de Raquel para conosco.

- Ai credo, para que falar isso para a gente? A gente lá fez alguma coisa?
- Não sei — respondo pensativa — mas algo me diz que é exatamente isso que elas vivem “no nosso mundo” todos os dias.
- Que “nosso mundo?”
- Ué, o mundo dos brancos. Nosso mundo. Nós somos brancas. Já pensou que ela, além de negra, ela é uma mulher trans? Imagine só, o que ela deve viver. Aliás… é isso que ela deve viver muitos dias — “Maltratação!”.

E de repente, eu penso: “Opa! Caramba! Já pensou sentir esse incômodo que eu estou sentido hoje todos os dias? Como deve ser viver com isso? Se sentir olhada a cada entrada num ambiente “branco”. Será que isso acontece em todos os momentos? Nossa… deve ser isso que estou sentindo multiplicado por 365 vezes a quantidade de anos da vida dela.” E me assusto mais ainda com a dimensão que os meus pensamentos tomam.

Deve ser realmente assustador viver com esse sentimento a quase todos os momentos. E por favor, quem sou eu, para tentar imaginar? Isso não deve ser nem uma pequena amostra do que as mulheres pretas passam no dia-a-dia.

Me senti culpada de me sentir mal pois de alguma forma eu sabia que não se compara ao sentimento da mulher preta. E de alguma forma eu me senti injusta de sentir o que aparentemente elas sentem. Não é justo eu comparar um sentimento de uma branca, num espaço preto, de uma preta em um “mundo branco”. As proporções são outras. Maiores, talvez indefiníveis e imensuráveis para uma branca.

Tentei parar de pensar para não aumentar a angústia e passei a me policiar para tentar me sentir bem onde estava, afinal, pedimos permissão para estar e entrar no espaço, o que nos foi concedido com educação e respeito. E seguimos por algumas horas conversando, enquanto aguardávamos o samba começar.

Em um dado momento, sou cutucada por uma garota que me diz:

- Oi, dá licença? Você é a Mariana? Seu marido pediu para eu falar com você para me dar um cigarro…
- Ah oi, claro, toma aqui.
- Obrigada.
- Vou lá fora com você — Eu disse seguindo para a rua junto com ela.Encostei no carro parado enquanto ela acendia o cigarro.
- Olha, você me desculpa, mas eu só pedi o cigarro para ele, viu?
- Ahn?
- Ah, tô só falando que eu só pedi o cigarro para ele. Eu respeito muito o homem da outra. Essa coisa de homem é bem complicada.
- Imagina, não tem problema algum, não tem que me pedir desculpa, você pode conversar com quem você quiser. E ele também.
- Ah “mulé”, não é assim não. Lá na periferia essas coisas de homem de outra mulher dá um rolo!
- É mesmo? Mas como assim?

E foi então que Keila* começou a me contar como funcionavam as coisas na periferia.

E eu me interessei. E ela falou. E muito.

Me contou que tinha 31 anos e um filho de 11, e que aquela ali, a Paula “que tá um pouco bêbada, não liga não” era a mulher dela há 9 anos.

- Ela que criou meu filho e aguenta as paradas da vida comigo. “Nóis” é companheira, divide as coisas ela ajuda a criar meu filho. Ele é quase homem já, tem 11 anos, curte o fluxo mas não curte essas parada de droga não. Ele me respeita muito, nóis tem uma proximidade da hora.

Aparentemente Keila nota meu interesse e passa a me contar muitas histórias da vida dela. Eu me deixo levar pela conversa, fascinada pela abertura que ela está demonstrando. Me interesso muito, mas me policio para não fazer nenhuma cara de espanto a cada situação “estranha” que ela me conta. Não queria ter alguma reação que demonstrasse o quão surpresa eu estava com tudo aquilo que ela me contava sobre a vida dela.

E ela me contou tudo que, naquelas duas horas de conversa, poderia caber.

Inclusive de como ela tinha “virado lésbica depois de um caso aí com 6 homem que me estruparam(sic)”.

Espanto, horror e interesse.

Deixei ela seguir falando enquanto me controlava para não chorar. Eu queria abraçar ela mas notei que — aparentemente — ela não precisava do abraço. O Relato ganhava força e poder a medida que ela dividia.

Incrivelmente, ela transformou o acontecimento em força motriz para seguir a vida. Não tenho certeza de que ela tem essa consciência.
Keila repetia várias vezes que aquilo tinha feito ela ir pra frente com mais força. E eu sentia um poder inerente que brotava nas palavras dela.

“Meu Deus, como ela conta tudo isso para mim assim, do nada, com essa força?”

Foi aí que eu percebi o tamanho do abismo entre nossas realidades.

Ela dizia que agora, nada e nem ninguém iria derrubar ela, já que “quem passa pelo o que eu passei não tem que ter medo de nada não”. E segue ela me contando sobre a vida dela.
Muito espanto de minha parte. Muita estranheza, muito sentimento diferente.

“Como, por Deus do céu, eu vou conseguir colocar no papel o que está sendo isso que estou vivendo nessas poucas horas desse domingo?”

Depois de muitos dias a pensar, notei que eu tinha sido aceita por ela e isso tinha feito toda a diferença para mudar o meu sentimento para com aquele lugar, aquela tarde e as pessoas que lá estavam. Ela me confiou a história dela, dividiu comigo, me deixou participar. E eu consegui me deixar participar e aí percebi que o sentimento de estranheza de alguma forma tinha ido embora. Alguém daquele lugar havia de alguma forma me acolhido e me aceitado. E de alguma forma eu passei a fazer parte e isso me ajudou a me sentir mais à vontade. Me senti aceita.

Depois de pelo menos uma hora de conversa, somos interrompidas pela Raquel iniciando o discurso dela, antes do show de samba.

Raquel faz seu discurso e relembra a todos sobre o propósito do Quilombo .

“Estar aqui representa recuperar algo que foi rompido de alguma forma. Significa juntar multiplicidades pretas que foram partidas… Enquanto houver o racismo enquanto nossa presença incomodar, há de se ter esse espaço, um espaço de cura preta. Racismo não é mais chamar de macaco. Racismo é institucional, e estruturante. E aquele que impede o preto de ocupar lugares bons, de poder. Lugares de espaço… Preto tem que estar em todos os lugares. Veja só: Quantos pretos tem no seu escritório? Se não tem, e espaço racista e a gente tem que se ligar. Esse espaço é nosso. Um espaço de tomada de decisão. De financiar projetos pretos. De deixar que os pretos façam, que sejam protagonistas. Precisamos parar de chorar a morte dos nossos. Para isso parar de acontecer a gente tem que combater e destruir o racismo estrutural. Esse é um encontro de Aniversário do Quilombo Urbano e estamos aqui para celebrar.”

Dona Estela*, uma convidada de Nara e Raquel começa seu relato. Ela já é uma senhora, entre seus 50 e 60 anos e conta que se viu negra em 2008. Relata que percebeu tardiamente o significado das mensagens que recebia no dia-a-dia: “Uma fala que silenciava a mãe negra. Mãe negra não sabe educar. Negra não pode estudar. Não pode escrever. Negra era aquela do Sargentelli, que rebolava na TV. A gente servia para só para arrumar marido. Agora eu sei que hoje é um novo tempo. Eu posso até estar lascada, mas agora eu sei o porquê de tudo isso. Eu entendo. E eu combato. Estar aqui é isso. A gente se reunir é isso. A gente se une para sobreviver”.

E tudo fica claro, (como bem corrige, meu professor, “escuro você quer dizer, certo? ;-) sem eu conseguir traduzir em palavras. Comunidade é isso. É estar junto por um objetivo comum. Duvido agora de que precisa-se de academia para definir a comunidade. Não precisa de definição acadêmica nenhuma para entender o que é comunidade, quando se é possível experienciar o senso de união para sobrevivência que ali estava presente o tempo inteiro.

Das discussões em sala sobre comunidade, sobre segregação, sobre grupo, justiça, pertencimento, tudo faz sentido. Sem fazer. Fazendo muito.

Bauman cita no seu livro de que a comunidade pode não ser assim tão positiva, quando se cai na armadilha da segregação.

Entendo o ponto, principalmente quando me senti parte dessa segregação. De não fazer parte. E por um momento eu senti que aquela união das pretas me separava mais ainda delas. E demorei para entender que, na verdade, eu era uma ameaça no meio delas e realmente não fazia parte. E não deveria fazer. Por que na verdade, eu nunca as deixei fazer parte da minha comunidade branca.

E esse é meu relato, daquele domingo na Rua Ava, número 48.

De alguma forma, entendo que ele não tem um fim aqui.

Ainda estou digerindo tudo e pensando em como traduzir o que eu vivi em forma de ação. Há de se agir para que eu possa ajudar a ninguém mais se sentir estranho num mundo que pertence a todos.

A psicologia pode ter papel fundamental em apoiar, incentivar e (quem sabe) promover a desconstrução de preconceitos que afetam a vida de tantos, trazendo para a luz da consciência o papel que cada indivíduo tem (e pode exercer) na (des)construção e resgate dos valores de nossa sociedade, para que, quem sabe um dia, ela seja uma grande comunidade.

Mariana, Abril de 2017.

* Nomes Fictícios para manter o sigilo do local e dos entrevistados.

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