Fichamento 4 | O culto do amador, Andrew Keen

Através de opiniões controversas, o autor Andrew Keen descreve a era da internet 2.0 a partir de expressões como “interminável floresta de mediocridade”

“Certamente, a tecnologia está mudando muitas coisas sobre o mundo. Está mudando a educação, a medicina, a conectividade e o transporte”, diz Andrew Keen, em palestra para o TedxBerlim, em 2015. |Fonte: Reprodução/Youtube.

Publicado originalmente no ano de 2007, o livro O culto do amador suscitou discussões pela adoção de uma visão crítica e pessimista sobre a era da Web 2.0 (dinâmica e participativa) por Andrew Keen. De acordo com o autor, a obra trabalha “numa polêmica sobre o impacto destrutivo da revolução digital em nossa cultura, economia e valores”.

Uma das inspirações para o livro vem de T.H Huxley, biólogo evolucionista do século XIX. O teorema do macaco infinito, uma das teses principais de Andrew Keen para a construção do livro, diz o seguinte:

Segundo a teoria de Huxley, se fornecermos a um número infinito de macacos um número infinito de máquinas de escrever, em algum lugar alguns macacos acabarão criando uma obra-prima — uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou um tratado econômico de Adam Smith. (p.1)

A analogia proposta pelo autor considera que os usuários da internet são os macacos e as máquinas de escrever são os computadores. Expressões como achatamento da cultura e interminável floresta de mediocridade são utilizadas para caracterizar a internet, pois para ele a publicação de qualquer coisa é possível na rede, sem critérios definidos. São diluídas, de certo modo, as fronteiras entre público/autor e criador/consumidor, o que parece ser um problema para o autor. Na verdade, ele desconsidera em boa parte a produção intelectual dos usuários, já que aceita os especialistas como maiores e quase únicos detentores do conhecimento.

Seguindo essa percepção, Andrew Keen analisa negativamente a experiência de autopublicação, representada pelos blogs. Aliada à existência de serviços como a Wikipédia, uma enciclopédia construída em rede por milhões de usuários, o autor considera esses serviços como capazes de confundirem a opinião popular, como apontado no trecho seguinte:

Com centenas de milhares de visitantes por dia, a Wikipédia tornou-se hoje o terceiro site mais visitado em busca de informação e eventos. Uma fonte de notícias com mais crédito que os websites da CNN ou da BBC, embora a Wikipédia não tenha nenhum repórter, nenhuma equipe editorial e nenhuma experiência na coleta de notícias. É o cego guiando o cego — infinitos macacos fornecendo informação infinita para infinitos leitores, perpetuando o ciclo de desinformação e ignorância. (p.1)

Embora os casos nos quais a Enciclopédia apresenta erros nos seus verbetes existam, é necessário pensar a plataforma por meio de uma visão mais equilibrada. De algum modo, ela e outros serviços similares atuam no sentido da descentralização do conhecimento, qualquer que seja ele, e, portanto, colaboram para a sua democratização gradual.


Outro ponto apontado pelo autor é o fato de o “experimento dos macacos infinitos na internet” não se limitar a palavra escrita, avançando para a produção e o compartilhamento de vídeos. O Youtube é citado, à época, como o principal portal para vídeos amadores. Atualmente, a plataforma não é utilizada apenas por amadores, mas também por artistas. Diversos usuários conseguem transformá-lo em um meio de trabalho, monetizando-o e profissionalizando-o. Esses são os youtubers.

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Alguns sites citados por Andrew Keen são o Google, motor de busca que utiliza algoritmos para oferecer os seus resultados, e o Reddit, fórum que agrega notícias e que o autor classifica como “espelho de nossos interesses mais banais”. Para ele, em ambos os casos é o desejo de atenção pessoal que movimenta a internet.

À medida que a mídia convencional tradicional é substituída por uma imprensa personalizada, a Internet torna-se um espelho de nós mesmos. Em vez de usá-la para buscar notícias, informação ou cultura, a usamos para sermos de fato a notícia, a informação, a cultura. (p.2)


Ainda, a problemática percebida por Andrew vai além da abrangência dos padrões culturais e valores morais. Para ele, as instituições tradicionais estão “sob ataque”. Fontes de informação como jornais e revistas estão perdendo espaço para os blogs gratuitos, cada vez em maior número, o que resulta em implicações como a dispensa de funcionários. De fato, a discussão em torno da substituição dos meios tradicionais pelos digitais, principalmente, não é de hoje, mas pede por uma discussão mais profunda do que apenas apontar como culpadas as novas mídias, visto que está condicionada a outros fatores mercadológicos, como inovação e adaptação.

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Uma das afirmações finais do autor nessa seção diz que os macacos assumirão o “comando do espetáculo”, principalmente com a ameaça de extinção da mídia antiga. É a partir disso que são feitos questionamentos, como: quais as dimensões reais do poder de comando na sociedade global, no que diz respeito à produção de conteúdo pelos usuários?

Capítulo 1 — A Grande Sedução

Capa do livro O Culto do Amador, em inglês. | Fonte: Reprodução

O autor revela ter participado, a princípío, do movimento que chama de “corrida de ouro” da internet. Ao fundar o Audiocafe.com, um dos primeiros sites de música digital, ele pretendia fazer com que música “jorrasse de todos os orifícios”. Seus relatos citam o momento no qual ele deixou de ser membro do culto à internet. Foi durante um acampamento para convidados do mundo digital quando tomou consciência da tese principal do encontro: a internet iria democratizar a grande mídia, como contido na citação:

A nova Internet tinha a ver com música feita pelo próprio usuário, não com Bob Dylan ou os Concertos de Brandenburgo. Público e autor haviam se tornado uma coisa só, e estávamos transformando cultura em cacofonia. (p.4)

A perspectiva de massa e de cultura em cacofonia reflete muito da herança da Teoria Crítica/Indústria Cultural no trabalho de Andrew. Para ele, existe uma sedução em relação à democratização, mas que não se concretiza. Ao invés disso, a internet se especializa em oferecer observações superficiais do mundo por meio de um “caos de informação inútil”.

Além disso, o conteúdo gratuito e produzido pelo usuário, gerado e exaltado pela revolução da Web 2.0, está dizimando as fleiras de nossos guardiões da cultura, à medida que críticos, jornalistas, editores, músicos e cineastas profssionais e outros provedores de informação especializada estão sendo substituídos (“desintermediados”, para usar um termo do FOO Camp) por blogueiros amadores, críticos banais, cineastas caseiros e músicos que gravam no sótão. Enquanto isso, os modelos de negócios radicalmente novos, baseados em material gerado pelo usuário, sugam o valor econômico da mídia e do conteúdo cultural tradicionais. (p.5)

Mais uma discussão suscitada na obra está relacionada aos ideais de verdade. Para o autor, na era da web 2.0, a verdade de uma pessoa torna-se tão verdadeira quanto a de qualquer outra. Atualizando-se o debate, podem ser trazidas àtona a pós-verdade e as fake-news. Ainda no texto, ele relaciona a velocidade dos fatos e a não-apuração à blogosfera, principalmente quando muitos atores podem dar as notícias, muitas vezes sem a supervisão dos já citados “especialistas” ou revisores e editores profissionais.

Num mundo plano, livre de editores, onde videomakers independentes, podcasters e blogueiros podem postar à vontade suas criações amadoras, onde ninguém é pago para verificar suas credenciais ou avaliar o material, a mídia encontra-se vulnerável aos conteúdos não confiáveis de todos os matizes. (p.5)

A citação à Wikipedia é retomada, sendo ela comparada inclusive com a Britannica, outra enciclopédia virtual. A diferença desta para aquela é que a Britannica possui editores profissionais, logo, para Andrew, maior nível de confiabilidade. Ao mesmo tempo, como apontado por Chris Anderson em a Cauda Longa, a Brittanica é menos veloz na criação e edição de verbetes e na alteração de informações.

Andrew Keen vai de encontro à problemática relacionada à autoria já trazida em larga escala por Lawrence Lessig em sua obra Cultura Livre. Para Andrew, a visão sobre a propriedade intelectual nesse cenário é preocupante.

Num mundo onde plateia e autor são cada vez mais indistinguíveis, e onde a autenticidade é quase impossível de ser verificada, a ideia original de autoria e propriedade intelectual tem sido seriamente comprometida. […] A definição nebulosa de propriedade, agravada pela facilidade como podemos copiar e colar o trabalho de outros para fazê-lo parecer como se fosse nosso, resultou em uma nova permissividade preocupante sobre a propriedade intelectual. (p.6)

Trazendo a questão para o campo das obras literárias, o autor cita a existência de uma “cultura do remix”, a qual considera prejudicial, pois o valor de um livro pode ser modificado a partir do desejo de tê-lo compartilhado. Além disso, questiona a efetividade da construção de uma narrativa coletiva (um wikirromance, por exemplo) como uma obra ficcional verossímil.

O antigo valor de um livro de um grande autor está sendo desafiado por um sonho coletivo de uma comunidade de autores hiperconectados que o comentam e revisam infinitas vezes, sempre conversando uns com os outros em um ciclo interminável de autorreferências. (p.7)

Vale ressaltar que a distorção da verdade, apontada pelo autor como modo de manipular a opinião pública em certas situações, não é um fenômeno restrito à internet. Ela pode se manifestar por meio do debate entre subjetividade e objetividade jornalística fora do campo virtual, atingindo também os jornais e as revistas — a mídia tradicional — anteriormente citados por Andrew.


O Custo da Democratização

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A referência ao editor da revista Wired Chris Anderson é recuperada novamente em tom de crítica pois para Andrew Keen, a teoria da Cauda Longa assume que “o talento bruto é tão infinito quanto o espaço de uma prateleira na Amazon ou no Ebay. (p.9) mas, na verdade:

O talento, como sempre, é um recurso limitado, a agulha no palheiro digital de hoje. Não se encontra o indivíduo talentoso, treinado, naufragado de pijama atrás de um computador, produzindo postagens estúpidas em blogs ou resenhas anônimas de filmes. Cultivar talento exige trabalho, capital,competência, investimento. Requer a infraestrutura complexa da mídia tradicional. (p.8)

Ao colocar o talento como uma instância tão inalcançável ou alcançável por tão poucos, Andrew novamente preza por ideais que conversam com o conceito de cultura elitizada, já muito revisitado e discutido por estabelecer limites para a definição de cultura, inseridos na perspectiva da Indústria Cultural. Até mesmo tendências como a segmentação de públicos e canais pelas mídias tradicionais, como as redes de televisão, são pontuadas como “absurdas”, se pensadas como maneiras de democratização de conteúdo. E a responsabilidade disso cabe, claro, aos amadores:

Nós seres humanos monopolizamos o centro das atenções nesta nova fase da mídia democratizada. Somos ao mesmo tempo os escritores amadores, os produtores amadores, os técnicos amadores e, sim, os espectadores amadores. A hora do amador chegou, e o público já está dirigindo o show. (p.9)


Um olhar mais equilibrado para a produção cultural poderia ser uma alternativa a algumas opiniões propostas em O Culto do Amador. Ao longo dos anos, Andrew Keen reconheceu algumas fraquezas em seu livro, principalmente em relação à mídia mainstream. Ainda assim, continua a defender a existência do que chama de “cultura supervisionada e, como aponta em entrevista à Revista Cult, “muitas vezes brinco dizendo que o meu livro é uma espécie de “Adorno for dummies” [Adorno para leigos]”, em referência às proposições da Escola de Frankfurt.

    Marília Abreu [Cibercultura]

    Written by

    Perfil criado para as atividades da disciplina de Cibercultura.

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