Casa limpa, comida feita e roupa lavada

Cheguei num paradoxo. Dessas encruzilhadas que a vida de vez em quando nos apresenta. Quem chega neste ponto da jornada é uma mulher, de 33 anos, mãe de sua primeira filha de 4 anos, filha de uma mãe que se separou do marido (meu pai), quando eu tinha 10 anos, minha irmã 8 e meu irmão menor 5. Minha mãe trabalhou muito durante minha infância e adolescência, e segurou as pontas da minha família, quando meu pai por seus motivos de pai que se afasta, parou de contribuir com presença, cuidado, dinheiro. Além de minha mãe, fui cuidada muitas vezes por figuras femininas, que reuniam as funções de babá, faxineira, cozinheira. Elas limpavam a sujeira da casa, arrumavam a bagunça, lavavam a roupa, a louça, faziam a comida e depois quando minha mãe chegava do trabalho, iam cuidar da sua própria casa, famílias e vidas. Mulheres guerreiras, trabalhadoras, por muitas vezes cansadas e imagino que sonhadoras de outras oportunidades melhores para suas vidas.

A gratidão que sei existir pela existência destas “donas-de-casa-profissionais” é infinita, afinal quem é que não gosta de viver numa casa limpa, ter roupas lavadas e outra regalia que vale ouro: nosso tempo para fazermos outras coisas mais interessantes, divertidas e lucrativas do que ficar limpando privada ou trocando roupas de cama. Eu mesma já desfrutei do trabalho destas mulheres fortes, agilizadas, dispostas para o trabalho pesado. E lembro de como era bom… Sempre lembro também de uma certa vergonha por “não querer ou poder” limpar minha própria sujeira, vergonha por estar trabalhando no computador enquanto alguém limpava os vidros das minhas janelas.

Com todo respeito que tenho por quem “precisa” deste tipo de ajuda, como também tenho pelas mulheres que fazem o trabalho, tal realidade para mim toca em 2 feridas muito doloridas e profundas que a sociedade humana e, principalmente a brasileira carregam por muito tempo: a primeira delas é a sensação de flash-backs escravocratas, na quais pessoas, normalmente de pele mais escura do que a minha, com menos oportunidades na vida, vem até a minha casa para me servir, em nome do meu conforto, do meu tempo para fazer outras coisas em troca de salários pelos quais eu não me vejo fazendo o que elas fazem. Aliás, para mim já é desafiador fazer este trabalho para mim mesma, na minha própria casa, imagine fazer tamanho trabalho sujo e pesado na casa de outra pessoa (ou outras pessoas) por uma diária de 80 a 180 reais?

Me perdoem a respeito de minha sinceridade, mas é muito difícil para mim, olhar uma irmã mulher, sabendo do que é ser mulher neste mundo, que tanto nos explora e me sentir parte do time dos exploradores. Coloco-me no lugar dessa mulher, muitas vezes mãe como eu e simplesmente não consigo fingir que estes pensamentos não me açoitam. Quando ela cuida da própria casa? Quando ela brinca com os filhos? Quando ela se cuida? Descansa? Se diverte?

Isso nos leva à segunda ferida: Ao nos beneficiarmos deste tipo de trabalho realizado por outra mulher, estamos afirmando uma história de desigualdades não apenas sociais, mas também da exploração de gênero. “Mulheres são mais confiáveis e dóceis, mais maternais, carinhosas e atenciosas com o lar” certamente habita os termos que levam à decisão de muitas pessoas quando escolhem suas “ajudantes”. O que liberta mais uma vez os homens dos trabalhos domésticos, para muitas pessoas, quase sinônimo de tarefa feminina.

Do outro lado, confesso que estou às beiras da exaustão, de tanto trabalho. Trabalhos com a casa, com minha filha, com os caminhos profissionais e financeiros. Sem contar que nem eu ou meu companheiro temos a habilidade em cuidar da casa de forma prendada, afinal pouco aprendemos nos nossos tempos de “empregadas mensalistas” durante nossas juventudes de escola, natação, inglês, dança, tv e videogame. Querendo ao mesmo tempo a limpeza em meu lar e o tempo para viver além da realidade doméstica que parece consumir meu tempo e energia que poderia estar dedicando para os projetos e sonhos de minha alma, que envolvem viver meu dharma, compartilhando meus dons e talentos com o mundo, tendo tempo de qualidade com minha filha, indo em busca de maior prosperidade para nossas vidas.

E aqui estou, sentada na encruzilhada paradoxal de alguém cuja consciência quer dizer CHEGA à exploração e ao sexismo dos quais sou tanto vítima, quanto posso ser perpetuadora caso escolha receber a tão bem-vinda “ajudante para trabalhos domésticos”.

Tenho curiosidade em saber a opinião de quem possui a “abençoada ajuda”. Como organizam seus pensamentos para considerá-la algo justo e luminoso? Será que vocês conseguirão me convencer humanamente das regalias da vida de liberdade doméstica em harmonia consciente?

E para aqueles que possuem os mesmos questionamentos e escolhas que trago, e portanto, vão vivendo girando todos os pratinhos da vida doméstica+familiar (+bonus: com crianças pequenas)+profissional, vos pergunto: Como vocês vivem? Como encontraram (ou não) uma solução saudável, consciente e harmoniosa?

Era esse meu desabafo questionador de hoje, meu pedido de ajuda à consciência coletiva virtualmente conectada de todos nós. Que ele possa iluminar a vida de todas as pessoas para que aspectos tão importantes de nossa vida parem de passar no silêncio e reclusão de nossos espaços privados.