Nasci de fórceps

Não acho que eu realmente queria sair da barriga da minha mãe. Creio que vivi uma vida intra uterina muito intensa. Todos os bebês vivem isso de alguma forma. Porém, além dos desafios comuns a todas as mães (em especial as de primeira viagem, que nem imaginam o que as esperam depois do portal do parto) e aos bebês que chegam aqui na Terra, penso naqueles desafios extraordinários. Penso em mães, como a minha, que tiveram que passar por intensas experiências de dor, de abandono e rejeição. Penso em bebês, como eu, que lá de dentro da barriga, sentiram tudo isso junto com a mãe. Todas aquelas emoções difíceis de lidar para quem já tem um corpo, quanto mais para alguém que está formando um. Por isso, acho que não quis sair… Por isso, resisti ao que me aguardava do lado de fora. Por isso, fui puxada para fora e aqui estou. Vivo com esta impressão, de aquilo que vivi dentro do ventre ainda reverbera em mim. Parece que saí do ventre de minha mãe com uma ferida. Uma ferida que nunca me permitiu ser feliz plenamente. Saí do ventre com uma sensação de falta, de não merecimento, de não suficiência… Meu bebê interior não recebeu o acolhimento da minha ancestral feminina, na verdade, minha chegada foi o que inclusive causou o rompimento entre mãe e filha – minhã vó e minha mãe.

Por mais que eu hoje consiga entender e perdoar. Por mais afirmações positivas que eu faça para lembrar-me que sou suficiente. Por mais que eu entenda que as escolhas da minha vó foram delas, que ela fez o melhor que ela podia com as ferramentas que possuía. Por mais que minha mente saiba que minha chegada foi uma libertação para a minha mãe. Ainda existe uma ferida.

Que eu ainda não consegui fazer parar de doer, que ainda não cicatrizou.

As vezes penso que de algum jeito deveria fazer minha vida caminhar apesar desta história antiga. As vezes penso que talvez fosse melhor ser cética e acreditar que nada disso realmente importa. Meu lado urgente e necessitado materialmente me pede para parar com essa lenga lenga emocional e ganhar logo o dinheiro que preciso para ser feliz… Não foi isso que aprendemos? Estude, tenha um bom diploma, com ele, consiga um bom trabalho que te pague um bom salário. Este salário te permitirá então ser feliz (durante alguns finais de semana e nas férias!)

Não deu certo… Achei que tinha escolhido a “melhor” faculdade para alcançar este objetivo. Fui buscar emprego num dos lugares que certamente teria um bom salário para me oferecer em troca de longas horas dando meu tempo e vitalidade para enriquecer o bolso dos já milionarios e inescrupulosos donos-patrões, que sequer sabiam meu nome. Não fui feliz. Não encontrei ali o caminho de uma plenitude que sequer imagino ter já conhecido em vida.

Aprendi a ser grata. Tenho muito a agradecer. Um teto, comida, saúde, segurança, afeto. Mas esta gratidão foi aprendida, foi a forma de buscar amenizar uma dor aguda e constante no meu coração… Quando eu era criança era tímida e sem muitas amizades, mudei algumas vezes de escola e isso encobria minha enorme dificuldade em me relacionar. Depois virei rockeira, gótica, dark… Me encontrei entre aqueles que viam a beleza da tristeza, do escuro e sombrio. Ao menos não estava sozinha em minha dor…

O tempo passou… E a vontade de ser feliz nunca desistiu, afinal é a vontade da vida evoluir em êxtase e alegria. É vontade de todos os seres caminharem rumo aos sentimentos de alta freqüencia do amor e da paz. Angústia, solidão e medo gastam muita energia para serem sustentados. Eu quero ser feliz!

Vamos lá! Acredite, faça acontecer! Prospere! Sorria! Floresça!

Será que alguma flor se abre se não tiver raízes? Será que a flor da alegria consegue se abrir enraízada em tristeza? Muitos especialistas tem a fórmula da felicidade, e percebo que elas se dividem em suas categorias: para ser feliz ou você busca fazer o que te faz feliz, ou você encontra as causas da sua infelicidade e ressignifica esta dor, traz entendimento e chama de experiencia que te fez mais forte.

Acredito nos dois caminhos.

Quero fazer coisas que me façam feliz. Seja quando estou criando minha filha, seja quando estou trabalhando ou me relacionando com outros seres humanos. Quero, ainda que com minha dificuldade usual, encontrar aquilo que me faz sorrir, e perceber se consigo fazer mais disso. Quem sabe assim consigo enfim colocar um sorriso no rosto da menina de cara triste e fechada que vejo nas minhas fotos de criança.

A outra forma de lidar com essa dor, é inevitável. Quem convive com fantasmas desde que se entende por gente, sabe que eles estão sempre à espreita. Não adianta fugir, os fantasmas querem ser vistos, eles são poderosos. Se alimentam daquilo que os atraiu: medo, insegurança, sentimentos de insufieciencia e incapacidade. É só estes sentimentos reaparecerem, e lá estão eles. Fantasmas alimentados e prontos para mostrarem do que são feitos.

Eu acredito que estes fantasmas querem o mesmo que eu: amor.

Quem ser olhados de frente, querem ser reconhecidos como legítimos em sua existência, em sua dor. Querem entender como fazem para se libertarem para enfim serem felizes. Eu já tentei fechá-los dentro de um baú, fingir que eles não existem, mas percebi ser impossível. Eles não vão morrer assim. Não é esta sua função na existência. Eles existem por um motivo, e sua missão precisa ser completada.

Aprendi a acolhê-los. Acolhendo-os, eu acolho algo de mim também. Algo se alivia e se transforma quando eu me permito sentir essa dor, sem sufocá-la. Sem dizer que ela não deveria existir. Algo se acalma e fica mais leve.

Gosto de imaginar que chego perto de minha mãe grávida de mim. Chego quem sou hoje, uma mulher de 33 anos, e acolho aquela menina de 19 anos. Ela grávida, recém saída da casa de sua mãe para descobrir o que seria a vida de adulta e de mãe tão cedo. Digo a ela que tudo vai ficar bem, que perdoe a sua mãe, que no futuro tudo estará bonito e tranqüilo.

Viajando na ilusão do tempo, me reconecto a mim mesma no ventre. Estou com medo, não consigo entender o que eu fiz de errado. E para este pequeno bebê de mim também ofereço toda a segurança que posso. digo que vai ficar tudo bem, que este bebê será uma mulher cheia de consciência e coisas boas para oferecer do lado de fora. Que eu não sou um problema na vida da minha avó e da minha mãe.

Que eu possa em breve aprender a ser feliz. Eu quero poder um dia prometer a esta bebezinha que sua vida vai ser linda e cheia de motivos para sorrir. Talvez seja isso que estou tentando fazer neste exato momento: sentir-me digna de ser amada, vista, merecedora de amigos. Sentir-me suficiente e capaz. Ser feliz e realizada.

A cada dia um novo parto de fórceps para a realidade. Que eu seja abençoada para que no dia de minha saída desta existência material, eu possa estar grata por ter sido puxada para esta vida. Que eu tenha vivenciado experiencias suficientes para saborear a leveza de quem sabe que viver vale a pena. Que eu tenha verdadeiramente ressignificado e integrado esta dor em mim e em minha linhagem. Que eu saia desta vida satisfeita, acreditando que fiz um bom trabalho e que meu legado reverberará na minha familia e em toda a humanidade para que no futuro nenhuma filha grávida tenha que romper com sua mãe e nenhuma bebê menina não seja recebida por sua vovó ao nascer. Minha mãe ao pegar minha filha recém nascida nos braços chorou lágrimas de amor e emoção. Gosto de acreditar que estou conseguindo curar algo muito maior do que eu posso imaginar. Que nesta cura maior, eu também sou curada, e um pouco mais livre consigo também ser feliz e realizar minha missão nesta vida.