(Foto: Chris Andrès)

Acordou com um estrondo na cozinha. Passou a mão pelos lençóis e se percebeu sozinha na cama. Tateou o chão com os pés, procurando os chinelos, calçou-os invertidos e andou cambaleante até a porta. Ao abri-la, farelos de madeira e concreto caíram em seu cachos ruivos. Lola? Tô aqui na cozinha! Acionou o interruptor, mas a lâmpada não acendeu. Guiou-se pelo foco de luz que vinha do fim do corredor, apoiando-se nas paredes. Ao passar pela luminária, gotas grossas caíram no seu nariz e ombros. Nossa, você viu essa goteira aqui no corredor? Tá uma cachoe — parou de falar…

O rei do fogo (giz pastel em papel Offset — Autoral)

Fragmentos sobre a necessidade urgente de redução da autoestima dos brancos.

I. Vento
O vendaval é uma manifestação do imprevisível.
Se somos nós a poeira a ser varrida, que podemos fazer?
De frente para a força incontida e esplendorosa da Grande Mãe, vislumbramos nosso sentido de mortalidade: pode não haver amanhã.
A realidade é que sempre estamos, não só de frente, mas rodeados por e sobre a Grande Mãe e suas inúmeras manifestações de força.
E o amanhã pode sempre não haver.
Mas, nem por isso, mantemos nosso senso de mortalidade, impermanência e insignificância.

II. Fogo
Aprendemos a recusar tudo o…

uma guirlanda de destroços
decora o natal do presente
placas-(sem)mãe
moleques sem pai
conchas quebradas
cascas de fruta
luzes de led
queimadas
desfazem
o que viriam a ser
guirlandas
os frutos torrados
já não alimentam macacos
as vidas rasgadas
já não cumprem as ordens
a guirlanda de plástico
já não acende fogueira

ser adorno é um peso

(modificado daqui)

A senhora tem atendimento preferencial, pode me acompanhar. Não precisa não, minha filha. Dona Otília, apesar dos 80 anos, negava qualquer atalho. A atendente, por trás da máscara, olha a velha com paciência. Lida com casos assim todos os dias. Pode vir aqui, senhora. Aponta para a porta de entrada da agência dos Correios. A senhora já é a próxima. Com a encomenda em uma mão e a carteira em outra, Otília firma as sandálias de couro no chão, em cima de uma das bolinhas vermelhas que servem de marcação para o metro e meio de distância preventiva entre uma…

(autoral — acrílica sobre papel)

É tão fácil sentir culpa. Tão automático cair em algum jogo de inverdade, se submeter além do gosto e do gozo. Ceder ao impulso de consertar tudo, de realinhar os desconfortos dos outros. Inventar razões levianas para harmonizar o ambiente e desfazer os atritos às custas do próprio cerne, castigar a própria pele, remontar a velha sina de ser o corpo que tudo recebe e a tudo se rende. O corpo que invade se rende? O corpo sem entrada: como se entrega? Uma psique invasiva distorce o tempo e o espaço à imagem de coitado que necessita compreensão do corpo…

(acervo pessoal)

Negar as demandas de uma casa ou delegá-las a alguém é, no mínimo, perder a oportunidade de aprender a lidar melhor com a matéria

João de Barro
arquiteto alado
construtor sublime
das conhecidas
formas arredondadas
adornos para árvores
postes
motores de ar condicionado
João é de barro
sua casa também
João é a casa que fez com o bico
para guardar o filho que vem

Na maior parte do tempo, somos capazes de nos reconhecer apenas naquilo que fazemos, e somos capazes de cuidar apenas do que nos gera este sentimento de identidade. Construir a própria casa é raridade. (Coisa de pobre, coisa de hippie.) Da decoração ainda damos conta, embora muita gente já contrate outras gentes para fazer o trabalho. Uma pena. A…

(acervo pessoal)

Sexta-feira, na via gastronômica, não parecia significar muito. Os zumbidos, o falatório, o apito de ré dos caminhões de entrega, tudo havia sumido atrás do ar parado e cinza daquele dia pálido. O silêncio se interrompia pelo som esparso e abafado de rodas no asfalto, de uma vassoura esfregando calçada no outro quarteirão, das aves que piavam somente o necessário. O tipo de dia que alguém escolheria para tirar a própria vida. Da ilha solitária que é o meu jardim, um terreno arborizado no meio da avenida, olho com angústia aqueles predinhos beges de varanda minúscula. Rego a horta e…

(modificado de http://neilopes.com.br/2015/05/10/flor-amorosa-compassiva-sensitiva/)

Quando ligou a TV e viu o governador anunciar o novo decreto de isolamento social por conta da pandemia, Odete suspirou aliviada. Pelo menos agora não vou ter que encontrar aqueles ordinários da repartição. Trabalhava há vinte anos no departamento financeiro da empresa de gestão de energia da cidade. Uma carreira longa e apática: o momento mais emocionante foi quando Cátia, sua colega de trabalho, entrou em trabalho de parto em pleno expediente, dez anos antes. Foi um momento e tanto. Odete, que já havia parido duas vezes, se dispôs a ajudar a mãe de primeira viagem, acalmando-a no banco…

(modificada a partir de uma imagem daqui)

A sacola caiu sobre a bancada, tão cheia que estava das sobras de carne de quem não comeu até o fim. Os ossos ainda carnudos, os pedaços de gordura e tendões se espalharam pelo mármore como se regurgitados por aquele ser inanimado, estufado, farto. As trabalhadoras da praça se movem incessantemente entre os baldes de rejeito usando fones de ouvido, jogando fora restos de comida, separando ossos, empilhando pratos sujos, limpando bandejas e, às vezes, conferindo as redes sociais. Com o desperdício de cada três pratos daria para fazer uma refeição completa. Respiro com dificuldade, os botões da saia lutando…

(Embrião suspenso no tempo — aquarela e nanquim)

os bebês estão nascendo com plástico na cara
o vírus está apontando o dedo na nossa cara
falo para você parar mas você não para
de assistir live enquanto a doença não sara

não quero parir
meu filho usando máscara

já se sentiu tão suspensa antes?
pensávamos estar cheias
quando sempre estivemos minguantes
daqui, para onde?
suicídio é apertar botão
quando o barro insiste: plante

Marília D. Jacques

Pesquisadora de desimportâncias; dona de casa por vocação; editora da Casatrês (www.casatreseditora.art.br).

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