Medo vs saudade

Eu estava na terceira série quando aconteceu da primeira vez. Eu estudava na sala da dona Beatriz, uma senhorinha de olhos azuis brilhantes e cabelos branquinhos. A dona Beatriz era irmã da supervisora da escola, uma ex-freira chamada dona Célia (conhecida pelos alunos como dona Séria, porque a presença dela inspirava respeito — ou seria medo?). Mas a dona Beatriz era legal. Toda sexta-feira ela deixava os alunos levarem pra casa um livro dela (a escola não tinha biblioteca) para ler sem compromisso. Naquele dia foi diferente. Não era nem sexta-feira, e a dona Beatriz me chamou, me deu um livro estranho que nunca tinha visto entre os exemplares que ela emprestava, e disse que minha mãe estava lá fora para me buscar. Eu já imaginava o que podia ter acontecido, mas quando saímos da escola, minha mãe confirmou: “seu vô Zé Lopes morreu”.

Morte é uma coisa assustadora, e eu não tinha passado por nada assim até então. O livro que a dona Beatriz me emprestou falava sobre a morte e o pós-morte, e em meio a alguns desenhos psicodélicos em tons de lilás dava alguns dados específicos sobre o fenômeno. “Quando alguém morre, a sua alma leva 20 minutos para chegar ao céu”. Essas coisas me assustavam, porque, bom… Se alguém calculou esse tempo, deve ter voltado para contar a história. Eu tinha medo de encontrar o meu avô em qualquer canto, medo de ele ficar bravo comigo por não ter ido no seu enterro ou mesmo por nunca ter pagado pelos saquinhos de pipocas doces que eu pegava na sua vendinha. Por um longo tempo eu não conseguia dormir sozinha, o que me fez de mim uma criança chata e medrosa por muito tempo.

Demorou um bom tempo até que acontecesse novamente. Mas de novo, em tive medo. Não porque eu achasse que meu primo iria voltar para me assombrar, mas porque eu aprendi que a morte não poupa nem os mais jovens, os mais saudáveis ou os mais alegres. Assusta também porque aparentemente ela trouxe os ventos fatais pra bem perto. Dois outros avós morreram no ano passado. Eu cresci, mas continuo a mesma menina assustada diante de perdas.

Isso me leva a uma dúvida: eu deveria estar sentindo tanto? É permitido que eu sinta o luto por tanto tempo? Afinal, não eram pessoas que eu era exatamente próxima, mas o passado, a infância e os laços de família nos uniam. Não sei se é adequado pensar nessas pessoas todos os dias antes de dormir, ou lembrar delas durantes atividades específicas que me trazem lembranças, mas tenho me permitido sentir tudo isso. Saudade traz as pessoas para perto de nós, o medo nos faz ter repulsa.

Tudo isso assusta, e nunca estarei preparada para uma próxima perda, mas acho que a saudade é mais agradável que o medo.

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