Finalmente tinha amanhecido. Eu via a luz dourada dançar na parede, passando entre os galhos e folhas verdinhas da amendoeira que, de tão alta, alcançava a janela do oitavo andar.

Minha vó tinha uma amendoeira no quintal. Era meu esconderijo secreto, meu abrigo de leitura, a sede do clube das meninas mas que menino também podia entrar às vezes e, por fim, o local onde se reunia a seleção de taco na roda da minha rua. Meu vô todo dia acordava bem cedinho, tomava seu café preto sem açúcar, fumava seu cachimbo e varria as folhas que caiam durante a noite. “Árvore mais besta,” vovó falava rindo, “só sabe fazer sujeira, fruta que é bom nada”.

Quando tinha 14 anos meu avô morreu. Vovó mandou derrubar a árvore.


_ ei. – o cutuquei na costela. Ele odiava quando eu fazia isso.

_ porra – falou baixinho e arrastado, enquanto me apertava mais forte – de novo?

_ nada. – respondi – eu odeio dormir aqui.

_ mentirosa.


Na verdade eu amava cada pedacinho daquele quarto. Os pôsteres na parede – Caetano, Gil, Miles David, Robert Glasper, Justin Timberlake e Raça Negra, além de outros vários que ele me obrigava a ouvir mas eu nunca lembrava –, as plantas bem cuidadas, a rede de canto, a arrumação quase impecável e a cama mais convidativa que já vi na vida, imensa, com lençóis sempre cheirosos e macios. Eu amava cada pedacinho daquele quarto, e, mais do que tudo, os braços em volta de mim.

fim da pt 1 da história de ninguém. Ou:
olhando um casal no ponto de ônibus, imaginei essa vida. Ou:
histórias que eu, presa no trânsito, conto pra mim mesma.