neguinha

Eu cresci com 3 avós.

Vovó Zilda, que veio parar no Rio de um jeito triste que só. Tem quase 100 anos e praticamente nenhum cabelo branco. Se bobear vai melhor de saúde do que eu, obrigada.

Vó Cilene, cujo hobby preferido é cozinhar grandes quantidades de comida para pequenas quantidades de pessoas. Ela quase sempre lembra que eu detesto milho.

E tem a minha bisa, meu coração fora do peito, que há mais de 3 anos já não está mais aqui pra me chamar de “nega”.

Quando ela se foi, minha casa saiu do eixo. Minha mãe, filha mais velha, cuidou de tudo e de todos com a firmeza de espírito que lhe é característica. Entre hospital e cemitério, não a vi fraquejar por um momento. Quando a poeira baixou, ela desmoronou. Acho que até hoje não conseguiu se remontar.

A minha bisa ajudou a me criar. É preciso uma vila e ela foi nossa vila. Cuidou de mim desde que saí do ventre até seus últimos momentos. Eu nunca vivi sem ela. E ela adorava me contar histórias que eu não lembrava. Esse dedo aqui, ó — apontava pro pé — eu machuquei te levando no colo num dia de chuva. Ela odiava os cabelos brancos, eu amava. Ela se achava magra demais, eu adorava apertar seus bracinhos.

A forma como ela partiu me deixou um sentimento eterno de gratidão. Rápido e sem sofrimento. Eu pisquei e ela se foi. Feito o Sol desaparecendo no mar. Não te causa agonia, porque você sabe que não há como ser de outra maneira. Eu achava que ela era pra sempre, mas quando ela se foi, me pareceu lógico. Foi uma vida completa, cheia de amor, cuidado, afeto e presença. E a gente sabe. Só a presença sara/cura/constrói. Estivemos juntas em todos os meus grandes marcos. Primeiros passos, primeiro dente, mudança de cidade, formatura da escola, primeira viagem, faculdade.

Sua presença diária me faz falta, não se enganem, mas é uma falta bem docinha. Às vezes, quando eu saio distraída de casa quase escuto sua voz: já vai, nega? Esses dias saí de casa de madrugada com meu primo. Enquanto ele trancava o portão, pensei em perguntar: avisou pra bisa que a gente tá saindo? Olho pras bananas madurinhas que ela amava e sinto a brisa na cara. Não tenho vontade de chorar. Foi uma boa vida. Ela me deixou aqui prontinha. Não perfeita, como ela achava, mas pronta. Quando você cresce rodeada de amor e cuidado, não aceita dar nem receber nada menos que isso.

Já faz 3 anos que ela se foi e só agora o coração aperta um pouquinho. Mas o que me desmonta são os marcos. Os primeiros sem ela.

Em 2017 faço 25 anos, um quarto de vida.

Em 2017 me formo na faculdade, evento raro (infelizmente)(por enquanto) na minha família.

Sem ela, que me possibilitou, segurando minha mão. O coraçãozinho segue em paz, mas caramba, é mais difícil que pensei.

*postei esse texto no Instagram um dia desses. Hoje, dia dos avós, resolvi repostar pra te-lo aqui guardadinho.

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