o vencedor

Eu não sei perder. Nunca soube. Aliás, não é que eu não o saiba: eu só detesto perder. E admitir pra mim mesma que estou disposta a levar discussões à (não) lugares surreais, desafiando os limites da lógica e quase que até do bom senso, foi e é doloroso, feito debaixo de muita lágrima e suor.

Eu precisei de coragem,

do latim atim coraticum, composto por cor, que significa “coração” e o sufixo -aticum, que é utilizado para indicar uma ação. literalmente, agir com o coração.

Agir com o coração pra não deixar que um comportamento tão destrutivo me dominasse e minasse meus relacionamentos. Veja bem, não é fácil. Não é fácil porque é raiz e é sintoma, porque admitir que sou obcecada pela razão é me admitir errada e eu sou tão obcecada pela razão que odeio admitir até pra mim mesma que estou. errada. Requer ação. Verbalização. Parar a discussão no meio, suando frio e coração acelerado e dizer “você está certo”.

Percebem como é fácil se perder dentro de si mesmo? Olhar pra dentro requer lucidez e lucidez custa muito caro.


Essa semana li uma frase que ficou brincando de roda na minha cabeça:

“I’m constantly torn between ‘if it’s meant to be, it will be’ and ‘if you want it go get it’”.

Achei graça porque sintetiza eu que eu venho trabalhando na terapia ultimamente. Minha necessidade-desenfreada-de-estar-certa hoje é bem controlada. São muitos anos de auto análise, de trabalho e crescimento emocional e de amigos me puxando pelo bracinho e dizendo “oi linda, quem é que te fez rainha do mundo?” de tempos em tempos. Hoje raramente entro em discussões pra vencer e não tenho absolutamente nenhum problema em mudar de ideia e de opinião.

Mas tem coisa… olha, tem coisa que mora tão fundo dentro da gente que quase chegar a fazer parte do nosso ser. E quando comecei a me perguntar porque o fim das coisas me traz tanto sofrimento, as pecinhas se encaixaram.


Perseverança é a obstinação que dá certo.

Esse parece ser o padrão que venho reproduzindo. Eu não sei perder, mas isso parece se justificar quando consigo o que quero. Eu não sei perder, mas não é isso que chamam de perseverança?

Ouvi da minha terapeuta: você não sabe deixar ir. Desconhece limites. E porque desconhece limites, vai vai vai vai e vai. Vai sangrando, vai doendo, vai se destruindo. Vai perdendo partes de si mesma. Vai se justificando, justificando os outros, racionalizando. Não sabe descansar. E porque não sabe descansar, está constantemente emocionalmente exausta. E se desespera quando se vê impotente.

(na real não ouvi tudo isso, foi muito mais uma construção conjunta. Diria então que ouvi *através* da minha terapeuta)

E eu fiquei pensando… eu fiquei na verdade quase surtando. Me orgulho de lutar pelas coisas que quero e me orgulho principalmente de lutar pelas pessoas. Eu vou atrás, sem orgulho e sem poréns, cruzo oceanos e montanhas, ligo, mando outra mensagem, escuto problemas e empatizo. É o meu super poder, o que me faz mais eu. Não porque seja especial, mas porque acho que essa seja a maneira mais sustentável de viver em sociedade. Não porque seja especial, mas porque Jesus me ensinou a viver assim. Eu acho que todo mundo vale à pena sim. Eu tento, num esforço consciente, não tratar as pessoas da maneira que elas “merecem”. Porque gente faz merda. Eu acredito em graça e em amor imerecido. É dessa forma que quero ser tratada, amorosamente, mesmo quando for a pior versão de mim mesma. Eu luto por pontes.


Não tem conclusão.

Eu entendi que ainda estou aprendendo a viver.

Espero aprender mais sobre limites.