O tal , doutor esse que provavelmente nunca subiu em telhados tão altos

Entre o alicerce e o telhado

mora muito mais que o concreto

Mari Mendes
Dec 2, 2017 · 3 min read

O senhor interrompeu nossa caminhada de repente. Perguntou sobre uma rua e logo apontou para o motociclista estacionado junto à calçada. O moço precisava ir até um lugar e não conseguia acessar a rede pelo celular. Enquanto nosso amigo foi ajudar o rapaz da moto, eu perguntei sobre aquele prédio enorme.

— É o ginásio municipal.

Comentamos sobre as dimensões extravagantes do prédio, que parecia pegar todo o quarteirão. E o senhor logo começou a contar uma história. Vestia roupas encardidas pelo trabalho e possuía um rosto simpático, onde o sorriso parecia ser sua configuração básica.

— Um cara que trabalhava numa obra do telhado desse ginásio, diz que subiu lá tranquilo, mas quando ele olhou pra baixo, aí travou. Tiveram que chamar bombeiro pra tirar de lá.

— O que? Gato? — perguntou meu companheiro, que estava prestando atenção no endereço que o motociclista procurava.

— Não, o trabalhador, rapaz. Entrou em pânico. Teve mesmo que chamar o bombeiro com o caminhão e tudo para tirar ele de lá.

— Bombeiro? Pegou fogo? — perguntou nosso amigo, que já havia terminado de ajudar o boy e agora se inteirava da conversa.

— Não. Foi o cara, que subiu lá para arrumar e ficou com medo.

— Ah, eu também ficaria. Trabalhar nessa altura deve ser perigoso.

— Eu não tenho medo não. Se você ver assim, lá no alto, eu vou andando de uma viga pra outra, respondeu o senhor sorridente.

Entre comentários sobre medo de altura e equipamentos de segurança, alguém perguntou se ele era soldador. Então ficamos sabendo que o senhor é serralheiro e dos mais experientes. E aí ele foi logo contando uma história que envolvia um soldador.

Diz que tinha algum trabalhador que teimava em tomar o cafezinho do mestre de obras. Todos os dias. Cansado de ser passado pra traz e ficar sem a sua merecida dose de cafeína matinal, o mestre passou na farmácia e comprou um pozinho, que diluiu no café, antes de deixá-lo no lugar de costume.

Neste dia, diz-se que o trabalho era complicado: a grande chaminé que antes era de tijolos seria substituída por uma de metal e os soldadores estavam emendando as peças para dar forma à coisa toda.

E eis que um dos soldadores, que já estava inquieto, começa a reclamar.

— Eita, que eu preciso ir no banheiro…

O supervisor tentou negociar:

— Termina pelo menos essa parte, porque se largar como está a peça cede, homem.

Terminada a tal parte, o soldador partiu para descer a chaminé, desesperado pelo dever que o chamava. O problema é que tinha um pobre coitado subindo pela estrutura estreita. E aí o soldador não conseguiu de segurar, tampouco teve tempo de avisar.

— Foi assim que todo mundo ficou sabendo que aquele soldador que pegava o café do mestre. Mas quem se lascou mesmo foi o outro que subiu na hora errada…

O senhor riu e comentou:

— Imagina se essa história vai parar na internet? A turma ia rir pra caramba, né?

Longe de mim defender quem bebe o café dos outros escondido, mas eu que não queria estar na pele do tal soldador. Não achei assim tão engraçado. Só que compartilho da curiosidade de saber o que daria colocar esta história na internet.

Talvez, se tivesse sido bem contada, até viralizasse.

Até porque há muito mais histórias entre o alicerce e o telhado do que julga nossa vã filosofia, que fica à margem do universo da construção de um prédio e da vivência de seus trabalhadores.


Mari Mendes é uma pessoa, mãe, redatora, escritora e ~social media~.Tudo isso de maneira autodidata.

É colaboradora da e tem uma página bem modesta no . Para quem é de , também é possível acompanhar suas viagens por lá.

No mais, eu me fortaleço é nas suas palmas. Por isso, por favor.

Mari Mendes

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Escrevo porque me quero

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