O centro empobreceu

E meu avozinho que acha que enriquei

Fotografia de Vinícius Vidal, que embora diga que não sabe escrever, sabe muito bem olhar

Meu avozinho não está mais lúcido faz um tempo. As visitas costumam ser recheadas das mesmas perguntas e suas respectivas respostas. Ele geralmente quer saber da minha família (não lembra mais quem eu sou), mas também pergunta do trabalho, do marido e, por fim, onde moro.

A esta última pergunta, sempre respondo:

— Moro no centro da cidade, vô.

Ao ouvir essa frase seu cérebro de velhinho explode. Seus olhos se arregalam um pouco, as sobrancelhas fazem um arco e os lábios se curvam para baixo, formando um beicinho de espanto. A essa expressão de surpresa sempre seguem comentários sobre eu ser “bem de vida”, ter “ficado rica” ou “ser chique”.

Para quem conhece o centro de Sorocaba hoje em dia, com certeza vai achar o comentário engraçado, como eu. Mas e se a gente voltasse um pouco no tempo e pensasse a cidade como meu avozinho pensa?

Quando ele chegou em Sorocaba, depois de peregrinar em vários trabalhos pelo estado de São Paulo, morou em uma pequena chácara lá perto do que é hoje o Carrefour Sônia Maria.

E aí começou a movimentação geral. Meu avô trabalhava como zelador numa fábrica ali perto enquanto minha avó e minha mãe vendiam doces e frutas para a comunidade da escola estadual João Clímaco.

Era década de 1980 e meu avô conseguiu, às duras penas, e com a ajuda do dinheiro que um primo meu ganhou na loteria, comprar um terreno nos confins de Sorocaba e botar lá uma casa. Sabe aquele papo de “quando eu cheguei aqui era tudo mato?”, pois era assim o bairro Santa Claudia, pertinho do Parque das Laranjeiras, quando minha família se instalou ali.

Minha tia Maria até se recusou a ir morar lá logo de cara. Ela disse que não moraria naquele fim de mundo. Acontece que o dinheiro só dava para comprar terreno e morar no fim do mundo mesmo. Depois de conformar-se ela também se mudou. E, inclusive, mora lá até hoje.

Naquela época, quem morava no centro era comerciante, profissional liberal, empresário e muito “bem de vida”. Praticamente não havia comércio fora do Centro e era preciso “ir na cidade” para comprar o que fosse preciso. E para quem não tinha carro naquela época significava umas boas duas horas de viagem nos famosos vermelhões da Urbes.

E também não havia asfalto. Minha mãe me contou que meu avô participou até de manifestação em favor da pavimentação da Avenida Itavuvu!

De lá para cá muita coisa mudou, é verdade. Pipocaram novas centralidades pela terra rasgada. Quem precisa mesmo vir ao Centro? Na Avenida Itavuvu tem shopping, hipermegablastermercados e tudo mais.

No Centro? Há os condomínios chiques sim, reduto do pessoal abastado. Mas há também muito imóvel envelhecido, comércio decadente. Tenho incontáveis vizinhos, todos alheios a mim, que me olham das janelas dos seus prédios cravados de aparelhos de ar-condicionado. Mas também tenho vizinho que é guardador de carros.

Ao lado das creches onde os filhos da classe média alta pagam mil reais por mês para brincar no playground de plástico colorido há uma alfaiate idosa que costura todos os dias no seu ateliê encardido enquanto olha a rua, carrancuda.

A chegada do shopping Cianê, que “revitalizou” a antiga fábrica de tecido da época de uma Sorocaba muito anterior ao meu avozinho, traz consigo um mau agouro de gentrificação que arrepia a espinha…

Mas quem sou eu para acabar com a alegria do meu avozinho, que acha que sua neta deu certo na vida? Não. Melhor deixar ele perguntar de novo e novamente deixá-lo com aquela cara de espanto: Minha neta enricou! Mora no Centro!


Mari Mendes é uma pessoa, mãe, redatora, escritora e ~social media~.Tudo isso de maneira autodidata.

É colaboradora da Alarme Feminista e tem uma página bem modesta no Facebook. Para quem é de Instagram, também é possível acompanhar suas viagens por lá.

No mais, eu me fortaleço é nas suas palmas. Por isso, por favor. Obrigada.