O ilusionista da Praça Coronel Fernando Prestes

Mari Mendes
Aug 28, 2017 · 3 min read

Eu conheci o homem das garrafadas como nós conhecemos a grande maioria das coisas: de ouvir falar. Contaram para mim que ele reunia mais de cinquenta pessoas ao seu redor na Praça Coronel Fernando Prestes. Era uma espécie de mago, que ia hipnotizando as pessoas e as convencendo com seus atos extraordinários até que oferecia as garrafadas milagrosas. Os mais deslumbrados (ou mais hipnotizados) compravam e levavam para casa as garrafas pet com um conteúdo misterioso e fantástico.

Fiquei tão intrigada, que quis conhecer o tal homem pessoalmente e assistir a um de seus espetáculos cotidianos. Cheguei na praça num dia de chuva fina, daqueles dias que todo sorocabano explica de maneira simples: está chovendinho. E nem a chuva fina afastou o público. Mesmo que em menor quantidade, havia curiosos o redor do mago da praça. Quando cheguei ele estava manobrando sua serpente negra. Alguém que estava passando comentou: “Olha o homem com a cobra!”. A outra pessoa duvidou e ficaram debatendo se era realmente uma serpente ou não, enquanto se afastavam. Eu já tinha certeza de que não era uma serpente de verdade. No entanto, era uma cobra real o bastante para chamar a atenção das pessoas que passavam em meio à garoa.

Naqueles poucos minutos antes da chuva engrossar ele transformou ovo em pintinho de brinquedo e também transformou um pedaço de jornal em nota de 20 reais.

O mais surpreendente, entretanto, foi quando ele fez brotar água do setor de classificados do jornal. Ele pegou as folhas e mostrou para nós uma por uma, folheando delicadamente, para depois fazer surgir um fio d’água de dentro das páginas que caiu nas mãos do rapaz que assistia.

Entre um show e outro ele oferecia, não as garrafadas que ouvi dizer, mas uma pomada de cânfora com cheiro bem forte. Rapidamente ele explica uma receita infalível: basta misturar na água com sal grosso e depois de ferver, inalar seu vapor. Tiro e queda contra o pigarro. Uma pomada é sete reais. Mas, como estava chovendinho, explicou, fazia duas por dez reais. Só por causa da chuva, porque quando parasse de chover, voltava ao preço normal.

Fiquei com vontade de puxar conversa com o pequeno ilusionista da praça quando ele fez uma pausa na apresentação por conta da chuva, que já despencava em gotas gordas sobre nós. Pensei em perguntar a quanto tempo ele vendia seus produtos, como ele aprendeu seus truques e se era suficiente para viver.

Só que a chuva e a timidez já estavam tão agressivas, que decidi apenas ir logo pagar a conta de luz que foi o outro motivo que me fez sair de casa. Quando estava na fila da lotérica, já estava convencida de que ele usa sua arte para impressionar e entreter as pessoas. O problema é que pedir dinheiro em troca do show não é bem visto pelo povo que perambula pela praça. Bom mesmo é vender uma coisa ou outra nos intervalos dos truques. Assim as pessoas se sentem mais a vontade para contribuir.


Mari Mendes é uma pessoa, mãe, redatora, escritora e ~social media~.Tudo isso de maneira autodidata.

É colaboradora da Alarme Feminista e tem uma página bem modesta no Facebook. Para quem é de Instagram, também é possível acompanhar suas viagens por lá.

No mais, eu me fortaleço é nas suas palmas. Por isso, por favor. Obrigada.

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