Poeminhas

Poeminha

Jun 20, 2018 · 2 min read

Este poema pretende não se alongar
No mais, pede desculpas pela intromissão,
Pelo desperdício de tempo em texto reflexivo
meramente performático filosófico
Pretende retratar-se das próximas vezes
que cogitar colocar-se entre o fogo cruzado
da tua preciosa informação
que não precisa de pausa coisa nenhuma que isso é para os tolos
Portanto esse poema se cala
diante de todos os discursos proferidos
Um abraço de letras desculposas desse poeminha.

Mostro monstro

Depois de secar meu rosto
Sigo novamente o ritual mecânico de pintura
Mas o sentimento teima em brotar, molhado
Minha máscara é muito frágil
Não esconde meu monstro de ninguém
Sou um amontoado de papéis amassados que continham boas intenções escritas
Qualquer vento me bagunça e expõe o que eu tento esconder até de mim:
sou ordinária, falha, monstro.

Millenials

Ela carregava nas costas
um saco de formato duvidoso
e peso incalculável.

Diante do balcão,
deu um jeito de chamar a atenção dele.

O dono da internet,
fluente em espetáculo,
euforia
e metralhadora
de pocket-pensamentos,
obteve a seguinte resposta
quando perguntou o que ela queria:

“Eu juntei aqui todos os likes,
que me prometeram felicidade picada,
em forma de endorfina rápida.
Em troca dessa imensa coleção,
de que cuidadosamente não usufruí,
quero uma felicidade mais plena e sossegada”

Ele não pôde atendê-la,
pois não sabia do que se tratava
esse tipo de felicidade.

Oficina de contato

Poesia não
Que poesia
É arbitrária
É homem branco canonizado
Intocável na santidade
E no passado.
Cercamento.Prefiro contato
Que o contato
Ao contrário
É o que liga, marginalizado
Para além da academicidade
Está dado:
Relacionamento
Link
Eu e você
O nosso contato contém a poesia

Like é vida!
Like a boss
Clica clica clica
Compartilha , reparte
Em finas fatias
Clique clique clique
Like é vida?
Quanta vida no like?
Chuva de like
hashtag, meme, trend, hype
É tudo momento
Rítmo frenético
Só o feed é infinitoQual é o peso
o cheiro
o gosto
do like
que alimenta
o algorítmo?
Engajamento? É like
Clica clica clica
Like is money, baby
Like é vida!
Viraliza, vicia
Turn down for what?
All you need is likes

Ansiolítico ou Poema para parar o tempo

O exercício que proponho é simples:
Tenha um relógio parado na parede
Parado porque fixo na ponta do prego
E imóvel porque o ponteiro aponta
Para o mesmo ponto
Continuamente
Esse altar à pausa
Vai contra a corrente do feed
Protesta silencioso contra a notificaçao
que belisca o pensamento
Contra a tela que insiste em capturar o tempo
O relógio parado pede aos olhos
Um oásis de agoraO relógio parado na parede, indolente
Não marca mais as horas
Marca a presença no presente
Aconselho, por isso,
Tenha um relógio parado na parede:
Um lembrete
Veja bem, estar adiantado não adianta
Tampouco estar atrasado compensa
Ajuste para o tempo do teu toque no peito
O vívido vivido
Suspenda todo o resto
E respira.
Alívio.


Esta pequena coletânea foi apresentada no SESC Sorocaba dia 19 de maio de 2018, como parte do Sarau que compôs a apresentação A Poesia Morreu, de Evandro Aranha.

Mari Mendes

Written by

Escrevo porque me quero

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